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  Regras do Blog | Perfil do tpadua 19 de setembro de 2018  


16/04/2018
Alucinado estado de guerra - Rubens Shirassu Jr

Nenhuma história deve ter comovido tanto os leitores brasileiros, nos últimos anos, quanto à da jovem dependente química Heleninha, relatada de forma realista e comovente no romance Terror e Êxtase, pelo escritor, cronista e jornalista José Carlos Oliveira, o Carlinhos Oliveira. Assim como outras histórias igualmente trágicas – a da jovem alemã Christiane F e da brasileira Sandra Mara Hezer. – a de Heleninha, uma adolescente rica da sociedade carioca, de apenas 17 anos, moradora de Ipanema, choca, horroriza e revolta por tratar de alguém infelizmente muito próxima de nós. Helena é brasileira. Helena pode ser nossa irmã. Ou nossa filha. Ela segue ao lado do temido bandido 1001, ladrão e assassino criado na Baixada Fluminense, que aterroriza a zona sul do Rio de Janeiro e só faz aumentar a paixão que Heleninha sente por sua imagem de líder autoritário, frio, calculista e violento.

Terror e Êxtase é um novelo de relacionamentos, de comportamentos, em quilos de cocaína, em doses de bebidas, de violência, de desigualdades sociais e econômicas. Uma das raras vezes em que alguém tratou das populações invisíveis, discriminadas e marginalizadas e seus problemas sem falso moralismo, sem paternalismo. Seu retrato duro, seco como as pedras pintadas brotando dos corpos dos retirantes de Candido Portinari, atinge a violência de um soco no estômago, num tremendo impacto. Um crítico mordaz e impiedoso dos males de nosso tempo, servido por um amplo domínio dos recursos narrativos. Politicamente engajada, a ficção de Oliveira não tem conotações partidárias ou doutrinárias, estando mais comprometida com a política dos cidadãos do Brasil, suas frustrações, suas mazelas, suas esperanças, seus anseios de independência e de liberdade.

No romance policial, Oliveira não deixa qualquer resquício de sua vida privada. Essa obra, o autor, com sua argúcia de jornalista e sua experiência de comportamentos sociais auridas nos bares da vida, irá tratar, pioneira e premonitoriamente, do conluio entre a criminalidade dos morros e a sociedade carioca. E fundamentalmente, denuncia uma rede maior de poder paralelo, que inclui política e economia, que dá as cartas nesse jogo perigoso. Sem ser um livro que reflete determinada época, mesmo sendo publicado em 1977, ele retrata o Rio de Janeiro de hoje, pois é uma completa, cortante e reveladora dissecação da face obscura e babilônica da cidade maravilhosa. Demonstrando o puro marketing das agências de propaganda, em parceria aos meios de comunicação, às redes sociais, aos setores turístico sexual, hoteleiro, da diversão, do entretenimento e da especulação imobiliária. Mas cabe ressaltar que Oliveira, ao buscar verossimilhança total, um “desenho lógico” perfeito em sua obra literária, costurando causa e efeito.

Toda a arquitetura do romance, alternando capítulos de uma nudez realista densa com outros carregados de pathos, num simétrico jogo de trevas e luz, conduz num crescendo, o foco da narrativa para o desenlace dramático. A cena que pinta, ao final do livro, quando o bandido 1001, ao se explicar para Betinho: - “Desculpe o mau jeito, garotão, mas guerra é guerra!” E esta não é a sensação que temos na atualidade? A voltagem sobe, pois emblematiza a frieza e a crueldade de uma sociedade vertiginosa em torno da velocidade de viver a vida de poder e riqueza (afluência), sem dar a mínima para as questões “menores impalpáveis”, para a ressocialização, enfim, para o destino dos protagonistas que seria selado, ali, próximo, bifurcando em dois caminhos fatais: no fórum da cidade: descartáveis indo para a condenação à prisão ou no cemitério sob uma cruz.

Um livro para pais, filhos e educadores lerem juntos. Uma história inesquecível, iluminada e inteligente. Por outro lado, uma constatação tão amarga, pela inércia, pela apatia, pelo completo desinteresse das classes políticas e de dirigentes. Eles não querem discutir esse assunto. Eles não querem “perder tempo” com esse tipo de coisa: seres humanos. Devia ser lido em audiência, além de esfregado na face de todos: magistrados, autoridades, policiais, advogados, ainda que calejados pelo horror dos ignorantes e dos comodistas, com ou sem poder. Não existem inocentes. Porque o alto teor de densidade e crueldade de Terror e Êxtase deixa marcas profundas que doem como ferro em brasa. E Oliveira tira da vida o documento mais pungente. Ele representa na Literatura Brasileira de hoje a juventude que se dilacera, na tristeza e no desencanto.




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