Busca:
   Acontece
   Artigos
   Condomínios
   Entrevistas
   Fazendo Arte
   Galeria
   Gente
   Opinião
   Promoções
   Sobradinho
   Sobradinho II
   Úteis
   Vale a pena acessar
   Esporte
   Sobradinho 48
   Planaltina
   Paranoá
   cobertura
Busca

O que você espera de 2017?

 
ver todos os resultados
 
Busca
Receba em seu e-mail as atualizações de nosso blog
Nome
E-mail
cadastrar desativar
 
  Regras do Blog | Perfil do tpadua 18 de novembro de 2017  


08/07/2017
O grande dia de Otacilio e Odete - Nelson Rodrigues

Não sei se repararam que os maridos não matam mais. Ou por outra: — só matam na primeira página de O Dia e da Luta Democrática. E, hoje, é cada vez mais raro o homicida por amor ou o suicida por amor. Mas o crime passional já teve a sua voga. (Aí está: — voga. Boa palavra. Tem som. Pretendo usá-la mais vezes.) Quando eu era garoto, na altura aí de 1920. (Já chego ao futebol. Vocês não perdem por esperar.) Mas em 1920 as pessoas tinham honra. E, então, lavava-se a honra a tiros, lavava-se a honra a bengaladas.

Em 1920 ou 19. Agora me lembro: — houve um crime muito falado, que saiu até em jornal de modinha. Como sempre digo, todo casal exige uma vítima, assim como exige um algoz. Para o bom equilíbrio da casa, é preciso que a vítima aceite o seu papel e que o algoz como tal se comporte. Era assim na casa do famoso senador Fulano de Tal. Era uma cabeça e sua retórica tinha um nível de Rui Barbosa, de Pedro Moacir e outros. Mas onde acabava o grande tribuno começava o marido crudelíssimo.

Batia até na mulher. E, uma noite, houve uma cena desagradabilíssima. O senador recebia outros senadores, com suas senhoras. E houve um momento em que a pobre esposa disse uma coisa qualquer, uma dessas trivialidades que não comprometem ninguém. Foi uma frase assim: — “Eu prefiro a homeopatia”. E, então, diante das visitas, o tribuno vira-se para a mulher: — “Você não sabe o que diz. Você é burra. E cala a boca!”. A santa mulher pergunta: — “Mas eu não tenho direito de falar?”. E o marido: — “Não fala, não diz mais nada!”. A outra exclamou: — “Fulano!”. Deu- lhe o berro final: — “Não diz mais nada ou apanha na boca!”. Os convidados já se queriam enfiar debaixo da mesa.

Aquela vítima era bonita, um pouco fanada, mas bonita. Ao mesmo tempo, sabia que beleza é um prazo. Dizia às amigas: — “Estou ficando velha, estou ficando velha”, Até que, um dia, apareceu-lhe um antigo namorado. Aproveitando um minuto, o ex-namorado disse-lhe, de passagem: — “Eu sou o mesmo”. A mulher quase desfaleceu. Sentiu-se atravessada de luz, sei lá. Mas passou. Até que, uma manhã, por causa de um botão que faltava na camisa, o senador disse, quase doce: — “Vai buscar a vara de marmelo”. Recuou, lívida: — “Não me bata, não me bata”. Ele insiste, ainda mais suave: — “Eu disse: — vai buscar a vara de marmelo”. A mesma cena, por outros motivos e até sem motivo, já acontecera não sei quantas vezes. Aquela mulher, trancando os lábios, foi buscar a vara de marmelo. Chorava. Ele apanha a vara e diz: — “Não chora. Engole o choro”. E, de fato, apanhou sem chorar, apanhou e engoliu o choro.

Não sei se no mesmo dia, ou no dia seguinte, ela apareceu no escritório do antigo namorado. Começa, ofegante: — “Você ainda me quer?”. Ele, fora de si, disse tudo: — “Não te esqueci um minuto. Hei de te amar sempre, sempre”. E começou a chorar, o pobre-diabo. Ela estava impassível: — “Fulano me deu uma surra, hoje. Eu tenho duas horas. Duas horas livres. Vem comigo”. Não foram duas, foram quatro ou cinco. Quando chegou em casa, estava o marido. Ele disse, com um ódio sem exaltação: — “Você foi vista, no Alto da Boa Vista, com um homem”. Pausa. Repete: — “Pode me explicar o que estava fazendo com um homem no Alto da Boa Vista?”. Nesse momento, ela teve um leve sorriso, de ironia quase compassiva:

— “Só podia estar traindo você”.

Desta vez não foi vara de marmelo, mas bengala. Bateu durante uma meia hora talvez. Agora queria que a mulher chorasse, que a mulher gritasse. Berrava: — “Grita! Chora!”. Mas não chorou, nem gritou. E, quando ela caiu, ele ficou, por um momento, vendo aquela mulher destruída. Agonizava. O senador acabou de matá-la a pontapés.

Muitos anos depois, ou, para ser mais exato, em 1957, na véspera do seu casamento, um rapaz contou à noiva a mesma história. Ele era Otacílio e ela, Odete (nome, como se sabe, em vias de extinção). A pequena, de uma família de nervosos, balbuciou: — “E era teu tio?”. Esse parentesco inesperado, à última hora, parecia insinuar não sei que vaticínio. Há um silêncio. Antes de se despedir, Otacílio disse mais: — “Vamos casar amanhã. Anda por aí uma pouca-vergonha como nunca vi. Mas olha: — quero te avisar. Comigo, não. Você é tudo para mim, sou maluco por você. Mas se me traíres, algum dia, eu vou fazer contigo o que meu tio fez com a mulher”. Ela começa a chorar: — “Está me ameaçando?”. Quis ir embora, mas ele a segurou: — “Não estou ameaçando, porque você não vai me trair. Ou vai? Se não me traíres, eu serei, disparado, o melhor marido do mundo”. Odete ainda tremia: — “Você me dá medo!”.

Um ano antes, uma senhora tirara cartas para Otacílio. E, entre outras, avisou: — “Você vai ser traído. Por uma mulher. Loura”. Aquilo não saiu da cabeça do rapaz. E, por coincidência, Odete era exatamente loura. Antes de pedir a garota em casamento, uma outra leu sua mão e disse-lhe exatamente o contrário: — “Não vai ser traído por loura nenhuma. Pode se casar”.

Casaram-se e, no fim de sete meses, Otacílio estava convencido de que a segunda cigana estava certa e de que a primeira era vigarista. Para os amigos, vivia-se gabando: — “Lua-de-mel não acaba”. E, realmente, pareciam feitos um para o outro. Ele brincava: — “Não te disse que era só não me trair? Sou ou não sou o melhor marido do mundo?”. Ela respondia, num beijo: — “Igual a você pode haver. Melhor, duvido”. Ele ria:

— “Aproveita, aproveita”.

Até que chegou 58, com o campeonato do mundo. A princípio, Otacílio era meio pessimista. Mas ganhamos o primeiro jogo, Brasil x Áustria, por 3 x 0. Odete pulava dentro de casa: — “Não te disse? Não te disse? Vamos ser campeões do mundo, meu filho!”. Exausto, emocionalmente: — “Ainda é cedo, ainda é cedo”. Empate com a Inglaterra. Vitória deslumbrante sobre a Rússia. Desta vez Otacílio agarrou a mulher no colo: — “E Garrincha? Você viu Garrincha?”. Arquejava: — “Agora, sim. Agora estou fazendo fé. Passamos pelo susto do País de Gales. Mas que banho na França”. Otacílio abria os braços: — “Eu não mereço tanto!”. Agora, era a Suécia: — “Será que vai ser como 50? Será que vamos perder a última?”. Odete trançava os dedos: — “A maior barbada!”.

E, de repente, tudo mudou. Na véspera de Brasil x Suécia, apareceu um tio velhíssimo, delegado de polícia e irmão do senador homicida. O sobrinho o recebeu com a pergunta: “Ganhamos amanhã?”. O velho de cara amarrada queria saber onde podiam conversar em particular. Trancaram-se no quarto dos fundos: — “Meu sobrinho, não sou de rodeios. Tua mulher te trai. Eu disse que tua mulher te trai”. Otacílio pergunta, quase sem voz: — “O que é que o senhor está dizendo?”. O outro continuou, implacável. Não era um boato, um talvez, um quem sabe, um pode ser: — “Fatos, fatos”. Tinha, por escrito, endereço, nome do outro, horário, os dias de encontro. “Demos uma batida e estavam lá os dois. Ele é um tal de Bulau, que vem aqui. Não vem aqui um Bulau torcer com vocês? E não é teu amigo?’’. Otacílio não dizia nada. O tio levanta e deixa um revólver em cima da mesa: — “Essa arma era do teu tio, o senador. Funciona. Mata a tua mulher. E foge, livra o flagrante. Ou matas ou te cuspo na cara”. Saiu, sem se despedir. A dor que atravessava Otacílio era a de ter sabido antes e não depois da finalíssima.

Apanhou o revólver. Aquilo deu-lhe uma náusea. E o amigo, que não saía de lá. Pôs o revólver na gaveta. Na hora do jantar, tomando sopa, decidiu: — mataria no dia seguinte, depois do jogo ou durante. Se a coisa estivesse para a Suécia, mataria durante o jogo. Passou a noite em claro, mas curioso: — pensava mais no título do que no adultério.

Chega o dia seguinte. Foguetes antes da partida. Odete furiosa, achando que o “já ganhou” dava azar. Ele não consegue pensar na sua vergonha de marido. “Penso depois do jogo.” Começou, começou. Suécia 1 x 0. Vira-se branco para a mulher. O sentimento da derrota deu-lhe vontade de matá-la, naquele momento. Vamos esperar mais um pouco. O senador estava certo. E, de repente, Vavá empata. Quando deu conta de si, estava aos beijos e abraços com a mulher. Gemeu: — “Vamos esperar, vamos esperar”. Terceiro gol, quarto. A cidade explodia. Lançou-se nos braços da mulher. E, súbito, puxou a mulher pelo braço. Moravam numa dessas casas antigas do bulevar e com essa coisa lírica, antiga, paisagística que é um galinheiro. No quintal, tira o revólver: — “Olha o que eu vou fazer”. Abre a porta do galinheiro e atira nas galinhas e mata, uma por uma. Atira o revólver pelo muro da vizinha. Depois agarra a mulher e soluça: — “Eu te amo, eu te amo, eu te amo!”.

(O Globo, 8/6/1970]. 




« voltar  |  Enviar este conteúdo  |  Imprimir este conteúdo  |  Comentar esse conteúdo  |  



SEM COMENTÁRIOS



22/10/2017 - Mediocre, corrompido e fracassado... Juka Kfouri - juca kfouri  Tem mais de 40 anos de profissão. É...
20/09/2017 - Copa Abarka - A primeira semana da IX Copa Interescolar Abarka de...
14/07/2017 - Dragões de esporas e penachos - Nelson Rodrigues - Amigos, foi a mais bela vitória do futebol mundial...
13/07/2017 - O mais belo futebol da terra - Nelson Rodrigues - Em 58, na véspera de Brasil x Rússia, entrei...
12/07/2017 - Deslizando como cisnes - Nelson Rodrigues - Amigos, bem sei que ninguém se ruboriza mais. O...
11/07/2017 - Os entendidos - Nelson Rodrigues - Por que o Brasil não gosta do Brasil e...
07/07/2017 - O grande sol do escrete - Nelson Rodrigues - Disse Rilke que a glória, o que chamamos glória,...
06/07/2017 - "João sem Medo" - Nelson Rodrigues - Amigos, não acreditem, pelo amor de Deus, que as...
05/07/2017 - O belo milagre das vaias - Nelson Rodrigues - O escrete parte hoje. Termina o seu exílio e,...
03/07/2017 - Nelson, Mao e Pelé - Nelson Rodrigues - Amigos, vocês conhecem, decerto, o maior feito de Mao...
Destaques
Registros Históricos - Carlos I.S. Azambuja
São registros históricos que comprovam a veracidade do que dizemos quase que diariamente. Quem diz o contrário é ignorante, por não ter nascido naquela época e não haver estudado a História verdadeira (com agá maiúsculo), ou por ser mal intencionado mesmo, como...



Pólo de Cinema. O sonho não acabou, ainda - Pedro Lacerda*
Não é a primeira vez que alguém tenta acabar com o sonho do Pólo de Cinema e Vídeo Grande Otelo, localizado em nossa Sobradinho. Desta vez, nos parece que é o próprio governo que está pretendendo dar um fim...



Marcada para segunda-feira,4, Audiência Pública para tratar do Ribeirão Sobradinho
Está marcado para acontecer dia 4 de novembro, uma segunda-feira, Audiência Pública proposta pela Câmara Legislativa do Distrito Federal exclusiva para tratar do Ribeirão Sobradinho. O evento será às 15 horas na Casa do Ribeirão Q. 9 Área Especial, frente para...



Busca