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  Regras do Blog | Perfil do tpadua 23 de junho de 2017  


31/05/2017
O "Possesso" Nelson Rodrigues

Amigos, não é hora de escrever bem. Fosse eu um Goethe na Itália e, diante do triunfo de ontem, estaria escrevendo horrendamente mal. Ganhamos. E que fazer agora, senão arrancar do nosso peito um gemido solene e fundo, como um mugido cívico? Quando acabou o jogo* , quando a vitória uivou, vimos o seguinte: — era esta uma cidade espantosamente bêbada. Cada um de nós foi arremessado do seu equilíbrio chato, foi arrancado do seu juízo medíocre e estéril.

Saímos à rua. Eu disse “cidade bêbada” e já explico: — fomos uma nação em pileque unânime. De pileque sem ter bebido nem água da bica. E é lindo, e gostoso, e sublime quando não há, entre 75 milhões de sujeitos, não há um único sóbrio. E já um nome me ocorre: Amarildo, o “Possesso”.

Amigos, dizia eu que os profetas andavam por aí aos borbotões. Repito: — os profetas escorriam como a água das paredes infiltradas. Não se dava um passo sem tropeçar, sem esbarrar num profeta. E o que diziam eles? Diziam a vitória do Brasil e mais: — profetizavam o nascimento de um novo Pelé. Eu próprio escrevi, na minha crônica de anteontem: — o novo Pelé era moreno, e antecipei minúcias e fui mais longe. Dei o nome do novo Pelé: — Amarildo.

Vejam vocês o que é o Brasil. O sujeito quer um idiota e não acha um idiota. No Brasil de hoje, o imbecil chapado, o imbecil total é uma impossibilidade. Mesmo o menos dotado dos brasileiros contemporâneos há de ter a sua chispa, a sua centelha, por vezes incubada, mas funcionante. Mas, se a pátria precisa de um gênio, logo o encontra. Aí está a Copa do Mundo: — perdemos um Pelé e, no mesmo instante, apareceu outro Pelé. Feliz o povo que, na vaga de um gênio, põe outro gênio.

Dizia o profeta quase profissional Cláudio Mello e Sousa que a vitória brasileira seria um quadro de Goya. Aí está o quadro, aí está o Goya. Mas eu falava de Amarildo. Após o jogo, os colegas me cumprimentavam como se fora eu o autor de Amarildo. Eu tinha de retificar: — “O autor do Amarildo é o Dostoievski!”. E, realmente, nunca vi na vida real um sujeito tão possesso e, por carambola, dostoievskiano.

O primeiro gol do Brasil ontem foi obra de um possesso. E repito: — só um possesso em último grau, montado num demônio, ou por este montado, só um possesso faria aquilo. Eu não estava lá, claro. Mas, desde ontem, cada brasileiro está possuído de uma imensa, de uma implacável vidência. Dir-se-ia que, apesar da estúpida distância física, todo o Brasil era testemunha visual e auditiva de cada lance da partida. E eu “vi”, no momento do gol, “vi” Amarildo, a cara, o peito, a loucura de Amarildo. De seu lábio pendia a baba elástica e bovina dos possessos. Nas páginas de Dostoievski é assim que os possessos babam profissionalmente.

Amigos, era ali ou nunca. Setenta e cinco milhões de brasileiros precisavam mais do gol que todo o Nordeste de água e pão. O possesso sentiu que era chegado o instante. Caçaram Amarildo. Entre ele e o gol havia toda uma flora de rapas, de pés na cara, palavrões, chifres. Só faltaram chupar-lhe a carótida como a um aspargo. A palavra “madre” circulava copiosamente. Naquele momento Amarildo não era um só: — era o possesso, era um dostoievskiano e, ao mesmo tempo, era um touro de soneto, “saudoso de feridas”.

Era também, por conta de Dostoievski, um rútilo epiléptico. Amigos, nunca um só foi tantos. E esse múltiplo, esse numeroso Amarildo acabou enterrando o seu gol, até o fundo, no coração da Espanha. Ali se cumpria a grande profecia: — um novo Pelé estava nascendo. E os Andes estupefatos viram erguer-se o astro recentíssimo, com o seu frenético fulgor.

E o segundo gol, amigos, o segundo gol! Vamos ao lance. O Mané apanha a bola. E, entre parênteses, tem razão o poeta e psicanalista Hélio Pellegrino quando afirma que Garrincha é a maior sanidade mental do Brasil. Exato. O próprio Freud, se conhecesse o Mané, havia de reconhecer, com a humildade dos sábios: — “Rapaz, se todo mundo tivesse a tua sanidade, eu ia acabar apanhando papel na esquina!”. Ontem todo mundo estava emocionalmente em pandarecos. Menos o Mané. Pegava a bola e era o mesmo, sempre o mesmo, eternamente o mesmo, assim na terra como no céu.

No segundo gol, Mané deu uns dez salames dionisíacos. Comeu com aquele apetite imortal toda a defesa inimiga. E comeu o juiz e comeu o bandeirinha. Tudo isso com uma saúde de passarinho, e insisto: — tudo isso com alegria, com bondade, com pureza. No fim, não havia mais ninguém para driblar, ninguém. E Mané, que no fogo mais infernal tudo vê e tudo sabe, passa para Amarildo. Mas não foi um passe qualquer. Nem a cabeça de são João Batista foi tão na bandeja como aquela bola de Garrincha. Estava lá Amarildo, o possesso Amarildo, o rútilo epiléptico. E então ele enfiou a sua cabeçada mortal. Aquilo era o Brasil.

[O Globo, 7/6/1962] 

* Brasil 2 x 0 Espanha, 6/6/1962, em Viña del Mar, no Chile, pelas oitavas-de-final. Encaminhado por Carlos SA.




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