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  Regras do Blog | Perfil do tpadua 20 de novembro de 2018  


07/08/2018
Paisagem desbotadas das ruas - Por Jacob Fortes

Jacob Fortes de Carvalho

Quem, por demoradas imersões, se der ao trabalho de mergulhar nas profundezas da mendicidade, examiná-la com toda minudência, concluirá que o ofício de pedinchar é exercido por dois grupos: os que fazem por justa precisão; os que fazem por malandrice. No grupo da justa precisão estão os que perderam a capacidade laborativa: inválidos, cegos aleijados, decreptos arrimados em cajado, etc. No grupo da malandrice estão todos os vadios, cínicos, que esmolam por aversão ao trabalho, preguiça, comodidade, desvergonha e até por diletantismo. Dificílimo distinguir um grupo do outro, o real do inverídico. É que os membros de ambos apresentam a mesma fisionomia, a mesma paisagem, esquálida, molambenta, enfim exibem os mesmos traços caracterizadores da face dolorosa e pungente da miséria humana que deprime o cenário multicomponente das ruas das grandes metrópoles. Os agentes da falsa mendicidade, — hábeis na extorsão pelo rogo em nome de Deus — fazem parecer, por meio de ardis, serem portadores de enfermidades graves, impossíveis de serem desacreditadas pelo mais incrédulo São Tomé. Dentre esses há os que optam por pedinchar durante a noite, quando todos os gatos são pardos. A penumbra imprime mais verdade aos fingidos quadros de dores e aniquilamentos sociais. Se do sexo feminino a embusteira — mais das vezes se professando viúva desamparada e doente — costuma conduzir a reboque um ou dois petizes, evidentemente andrajosos e de caras borradas ou confeitadas de bexigas para, desse modo, fazer o inverídico passar-se por real. Não se duvide se os petizes forem objeto de alugação de uma vizinha, acumpliciada. Dentre essas há as chamadas carpideiras, que têm aptidão para prantear facilmente.

Pedinchando na via púbica, nas calçadas, na sacristia, no vão das portas, a malandrice, dotada de grande vocação dramática, vai-se aprovisionando à custa das pessoas de boa-fé.  Os pedintes impostores cientes de que a esmola é óbolo incerto, depende da generosidade e estado psicológicos dos doadores, e das circunstâncias, capricham nos truques para que a falsa miséria seja plena em convencimento e comoção.  Nisto, exemplificativamente, estão os patéticos “atestados”, (apócrifos evidentemente), que pretendem abonar o tamanho e a natureza da desgraça que lhes vão por casa: graves enfermidades, prole faminta, cadáver à espera de caixão, enfim tudo que tenha o condão de destrancar um bolso hesitante. Há casos, insólitos, em que o farsante se roja pelo chão para fazer romper o lacre da caridade indecidida.

Mas os parcimoniosos, que economizam até na hora dos óbolos, precisam ficar atentos. Óbolos reles, aviltados, podem desgostar os malandros. Quando isso acontece costumam estes proferir pragas; dizem que elas pegam.

Se, no local em que exploram a caridade pública, aparece algum forasteiro invasor, os decanos vitalícios martirizam-no como nas escolas aos estudantes calouros. Os rentáveis pontos de pedinchar são, por vezes, negociados a peso respeitado, como às cadeiras de engraxar.

Enquanto a mendicidade verdadeira, instada a pedir, o faz constrangida e incomodamente, a farsante esmola foliando, numa a alacridade de espírito que lembra quermesses, plenas de folguedos populares. A farsante vê na mendicância não somente um meio de vida, mas uma pândega, uma faina das menos fatigantes, sem responsabilidade.

E enquanto não se pode distinguir o inverídico do real segue o cortejo da falsa mendicância que, à folia, vai amealhando provisões ante à toleima incauta dos que dão esmola. Impossível demolir essa viciosa prática, banir desse palco os falsos atores, inclusive porque muitos dos quais são velhos frequentadores dos calabouços; sem falar no descaso dos governos, invariavelmente deslustrados de honra.

Mendicância, falsa ou verdadeira, é fenômeno delator de patologia social; é chaga social que desbota não unicamente as ruas, mas descolore um País pujante, conspira contra sua gente.




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