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  Regras do Blog | Perfil do tpadua 21 de agosto de 2019  


10/06/2019
Zezé Motta

Sou apaixonada por Charles Chaplin desde criança, quando o via nas pequenas televisões do colégio interno onde estudei até os 12 anos. 

Nessa época, ele era como um desenho animado sem som, que me divertia muito. Claro que eu não entendia seus recados na íntegra, mas com o tempo compreendi que o que ele fazia era arte: o cinema mudo.

 Na minha infância, ser atriz era uma coisa inatingível. Talvez estar tão atenta a Chaplin já fosse um prenúncio, mas eu estava no palco mais pelo prazer. Sem pretensão nenhuma. A coisa só acabou acontecendo porque ganhei uma bolsa para fazer o curso de arte dramática do teatro Tablado. Foi aí que eu descobri o que queria para mim.

Mas percebi muito cedo que tinha um dom. Nas festas do colégio interno, eu estava sempre me exibindo. Participei com muita frequência das recreações no ginásio; passava fins de semana ensaiando peças.

Meu pai era músico —montou um grupo de chorinho, mas em casa tocava clássicos— e queria que eu seguisse a música. Minha mãe é modista —o que hoje chamam estilista— e queria que eu fosse por esse caminho. Ela fazia de tudo, costurava as roupas de todos nós, e achava que era mais bem-sucedida que meu pai.

Depois de sair do colégio interno, já fui direto ajudar a minha mãe no trabalho do ateliê. Costurávamos o dia todo ouvindo rádio, e eu cantava as músicas de que gostava para meu pai ouvir. Foi quando mostrei "Saudade Particular", interpretada pela Ellen de Lima, que ele me descobriu cantora.

Nessa época, eu já gostava muito de cinema, mas ia muito pouco por falta de grana. Até que decidi voltar a estudar, depois de ter parado por esse tempo em que auxiliava minha mãe no trabalho.

Morávamos num prédio de classe média baixa que ficava perto do ginásio João 23, fundado por dom Helder Câmara, um bispo perseguido pela ditadura, no conjunto habitacional da Cruzada São Sebastião (que existe até hoje). Tive a sorte de conseguir uma vaga noturna lá, com ajuda da minha cunhada na época.

Fazíamos ali um teatro muito sério, tínhamos palestras de filósofos e cineastas. Toda essa história ajuda a entender por que foi só aí, já adolescente, que passei a ir ao cinema. 

Então Chaplin virou realmente um ídolo. Penso que só um gênio é capaz de provocar tanta emoção sem emitir um som. Depois de adulta, quis ver todos os seus filmes e rever aqueles que não entendi totalmente quando criança.

Então o ciclo se fechou: além de sua genialidade com as emoções, fiquei encantada com seu uso do cinema como instrumento político de denúncia. Nos filmes, ele está sempre do lado dos miseráveis, denunciando a desigualdade e o autoritarismo. Ele era contemporâneo àquela época e continuaria sendo hoje, com toda sua ousadia. 

Quando me tornei profissional, no curso de arte dramática do Tablado, entendi que ator não pode ter pudor. Se você for interpretar um personagem que tem que ser usado, não vai desempenhar bem com pudor. Fico emocionada de perceber como Chaplin não tinha nenhum. Tenho impressão de que, se ele fizesse cinema hoje, ficaria nu.

Se for para escolher um só filme, fico com "O Grande Ditador". Junto com "O Vagabundo" e "Tempos Modernos", ele compõe todo o caminho em que desembocam os pobres massacrados, os operários em condições precárias. Puxando esses filmes pela memória, ainda me impressiona como parecem ter sido escritos agora, em 2019.

A desigualdade continua, a discriminação e o descaso com o assalariado continuam, ainda vivemos todo tipo de autoritarismo. É muito triste pensar que as coisas não mudaram em todo esse tempo. Quando será que o ser humano vai se tornar realmente humano?

Zezé Motta, atriz e cantora, atuou em "Xica da Silva" e "Orfeu".Depoimento a Walter Porto..Encaminhado por Carlos SA.




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