Busca:
   Acontece
   Artigos
   Condomínios
   Entrevistas
   Fazendo Arte
   Galeria
   Gente
   Opinião
   Promoções
   Sobradinho
   Sobradinho II
   Úteis
   Vale a pena acessar
   Esporte
   Sobradinho 48
   Planaltina
   Paranoá
   cobertura
Busca
Busca
Receba em seu e-mail as atualizações de nosso blog
Nome
E-mail
cadastrar desativar
 
  Regras do Blog | Perfil do tpadua 15 de julho de 2018  


13/04/2018
Longelândia - Sérgio Rodrigues

O primeiro fato a ser destacado sobre Longelândia é que fica longe. Tanto no papel de adjetivo quanto no de advérbio, longe é uma noção relativa, claro: depende do ponto de vista. Mas todos concordam que Longelândia fica longe de ser uma terra decente. 

As fontes históricas se contradizem sobre a origem do nome do lugar. Recentemente, ganhou fôlego a tese moderninha de que seu sentido primitivo seria o de “Terra do Lounge”, como se por lá abundassem sofás, espreguiçadeiras, luz baixa e musiquinha de happy hour.

Há argumentos curiosos em defesa dessa teoria, como a ideia de conforto e relaxamento eterno em berço esplêndido que habita os sonhos dos nativos, para não mencionar o comovente fascínio da maioria deles pela língua inglesa. Mas a verdade é que nenhum etimologista sério assina embaixo dessa versão.

A tese mais respeitável é a de que o nome do lugar deriva do hábito nacional atávico, quase um cacoete, de projetar a realização de seu gigantesco potencial —inegável e inebriante, mas arisco— num futuro longínquo.

Um futuro longínquo que, como em determinada lógica onírica, parece sempre destinado a ficar mais distante quanto mais perto se chega dele.

E já que falamos dos nativos, registre-se que também sobre seu gentílico paira controvérsia. Alguns dos habitantes de Longelândia se identificam como longelandinos; outros, como longelandenses. Até hoje, todas as tentativas de fazê-los adotar um nome comum foram frustradas.

A campanha pela unificação do gentílico dos nativos de Longelândia que mais se aproximou do sucesso foi a que tentou fazê-los abrir mão de suas diferenças para abraçar uma terceira via —a dos longelandianos.  No fim das contas, contudo, o chamado Movimento Cívico Longelandiano (MCL) também passou longe de resolver o problema. Foi fulminado pela ruidosa dissidência longelandesa.

Há analistas que enxergam nesse cisma vocabular um espelho simbólico da rachadura concreta que atravessa na horizontal a sociedade de Longelândia, uma das mais desiguais do mundo –um problema 
que vem de muito, muito longe.

Têm ficado cada vez mais violentas as discordâncias entre longelandinos e longelandenses sobre o melhor caminho para conduzir sua sociedade ao futuro longínquo e fugidio em que Longelândia poderá se declarar por fim —será mesmo?, quem sabe, vale a fé— uma terra decente.

Com escárnio e punhos cerrados, longelandinos e longelandenses passaram a se referir uns aos outros usando metáforas de salgadinhos e embutidos baratos, enquanto sonham com o dia em que o outro lado vai simplesmente sumir no abismo que se alarga dia a dia entre eles.

Certos observadores mais pessimistas já temem que a idade emocional média dos nativos —que nunca foi superior à adolescência, mesmo em momentos de maior maturidade coletiva— esteja cedendo definitivamente a níveis de quinta série.

Incapazes de concordar sobre o sentido de palavras simples como “golpe” e “corrupção”, muitos longelandinos e longelandenses veem respectivamente um santo e um demônio onde há apenas a figura trágica de um homem público que teve tudo para tornar Longelândia uma terra decente, mas, como tantos outros, fracassou.

Sérgio Rodrigues

Escritor e jornalista, é autor de ‘O Drible’ e ‘Viva a Língua Brasileira’, entre outros. Encaminhado por Carlos SA.




« voltar  |  Enviar este conteúdo  |  Imprimir este conteúdo  |  Comentar esse conteúdo  |  



SEM COMENTÁRIOS



12/07/2018 - Perdão - “Perdão é como uma pétala de flor. Ressentimento é...
12/07/2018 - Não há futebol sem palavrão - Sérgio Rodrigues - Seria uma experiência científica de grande interesse artístico ou...
12/07/2018 - Macaco Simão...Urgente - Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!Predestinados...
12/07/2018 - Os cowboys de Holliwood - Rubens Shirassu Júnior* - A aparência atual do gênero está mais para caubói...
11/07/2018 - As boas do Macaco Simão - Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!A...
09/07/2018 - O cantor da "Revolução Perdida" na Nicarágua - Clóvis Rossi - Nada pode ser mais eloquente a respeito da traição...
09/07/2018 - Um domingo para esquecer - Sérgio Rocha de Barros - Na história das instituições brasileiras, foi um domingo para esquecer. Como...
09/07/2018 - Gravação de "Chega de Saudade" foi um parto... - Ruy Castro - Onze dias antes, em 29/6, o Brasil fora campeão...
09/07/2018 - Por que não entendemos as derrotas do Brasil? - Júlio Gomes - A conversa corre solta no bar, na sala, na...
07/07/2018 - A arte de fazer música dormindo - Álvaro Costa e Silva - Não foi bem o que os entendidos chamam de...
Destaques
Registros Históricos - Carlos I.S. Azambuja
São registros históricos que comprovam a veracidade do que dizemos quase que diariamente. Quem diz o contrário é ignorante, por não ter nascido naquela época e não haver estudado a História verdadeira (com agá maiúsculo), ou por ser mal intencionado mesmo, como...



Pólo de Cinema. O sonho não acabou, ainda - Pedro Lacerda*
Não é a primeira vez que alguém tenta acabar com o sonho do Pólo de Cinema e Vídeo Grande Otelo, localizado em nossa Sobradinho. Desta vez, nos parece que é o próprio governo que está pretendendo dar um fim...



Marcada para segunda-feira,4, Audiência Pública para tratar do Ribeirão Sobradinho
Está marcado para acontecer dia 4 de novembro, uma segunda-feira, Audiência Pública proposta pela Câmara Legislativa do Distrito Federal exclusiva para tratar do Ribeirão Sobradinho. O evento será às 15 horas na Casa do Ribeirão Q. 9 Área Especial, frente para...



Busca