Busca:
   Acontece
   Artigos
   Condomínios
   Entrevistas
   Fazendo Arte
   Galeria
   Gente
   Opinião
   Promoções
   Sobradinho
   Sobradinho II
   Úteis
   Vale a pena acessar
   Esporte
   Sobradinho 48
   Planaltina
   Paranoá
   cobertura
Busca

O que você espera de 2017?

 
ver todos os resultados
 
Busca
Receba em seu e-mail as atualizações de nosso blog
Nome
E-mail
cadastrar desativar
 
  Regras do Blog | Perfil do tpadua 17 de dezembro de 2017  


13/06/2017
O martírio de Nilton Santos - Nelson Rodrigues

Amigos, minha última obsessão é a seguinte: — o tapa que Nílton Santos deu no juiz* . O episódio ainda é assunto, é notícia, é manchete. O craque foi arrastado a julgamento. Em vão, bateu às portas da indulgência humana. Ninguém lhe concedeu uma atenuante. A impressão que se teve é que o tapa de Nílton Santos está entre os sete pecados capitais.

Cabe então a pergunta: — a coisa merecia esse estardalhaço? Merecia essa promoção? Receio que sim e explico. Não há tapa intranscendente. Agressor, vítima e testemunhas estão implicados na mesma humilhação. Eu me lembro de uma cena que vi, faz tempo, numa luta de Éder Jofre. Na altura do segundo ou terceiro round, um espectador ergue-se, aos uivos. Vociferava para o ringue: — “Parem! Parem!”. Cercado por três ou quatro, o sujeito foi arrastado. Mais desgrenhado e ululante do que um jeremias, ele ia soluçando: — “Não se bate na cara de ninguém! De ninguém!”.

Parece que a Justiça Esportiva, sensível à transcendência do tapa, levou o castigo às últimas conseqüências. E, de repente, Nílton Santos lembrou o martírio de Dreyfus. Como se sabe, diante da tropa formada, arrancaram os bordados de Dreyfus, depenaram as dragonas, arrancaram os botões, derrubaram o boné. Tudo isso ao som de tambor, cometa, o diabo. Nílton Santos quase teve essa degradação total.

E não ocorreu a ninguém que um tapa pode ter a sua ética profunda. Nílton Santos bateu por quê? Sim, por quê? Vamos reconstituir o fato. Segundo todas as testemunhas, o árbitro correu para o jogador e espetou-lhe o dedo na cara. Vamos e venhamos: — é meio triste para um adulto, casado, pai de filhos, sofrer uma desfeita assim pública e assim hedionda.

A gravidade de uma humilhação depende de público. Se os dois estivessem num terreno baldio, apenas assistidos por alguma cabra vadia, a coisa não teria nenhum patético. É a testemunha que valoriza e dramatiza as ofensas. Nílton Santos e o juiz brigaram num campo de futebol. Gente por toda parte, e repito: — gente pendurada até no lustre. Dirá alguém que o jogador agrediu. Convém lembrar: — dedo na cara também é agressão.

Eis o problema: — um juiz pode agredir e um jogador não pode revidar? Dirá algum fariseu que o atleta não pode dar tapas como um gângster. Ora, mil vezes mais grave, mais solene, mais hierático do que o atleta é o ser humano. Um jogador não pode ser, nunca, a antipessoa. E, afinal de contas, se houvesse justiça real, o jogador que se portou como homem — e por isso mesmo — teria de ser desagravado, promovido, premiado.

Mas, no caso, há também um aspecto desesperador. Refiro-me à infalibilidade que se confere ao juiz de futebol. Tem um poder que, hoje, negamos ao rei da Arábia Saudita. A tirania mais cruel e obtusa tem seus limites. E só o juiz de futebol paira acima do bem e do mal. Sim, depois do que fizeram com Maria Antonieta, ou com Maria Stuart, ou com Inês de Castro — não se entende que um apito, um reles apito, possa tornar alguém sagrado, intangível.

[O Globo, 12/3/1964]

* Nílton Santos, 39 anos e bicampeão do mundo, foi suspenso por sessenta dias por agredir Armando Marques. 




« voltar  |  Enviar este conteúdo  |  Imprimir este conteúdo  |  Comentar esse conteúdo  |  



SEM COMENTÁRIOS



16/12/2017 - Ricos do Brasil, o seu candidato só pode ser o Lula - Clóvis Rossi - Se eu fosse rico, torceria para que Luiz Inácio...
15/12/2017 - Daqui não saio...! - Bernardo Mello Franco - A ministra Luislinda Valois não quer desgrudar da cadeira....
14/12/2017 - A crise brasileira e o passado... - Clóvis Rossi - Todo o formidável progresso dos últimos 50 foi incapaz...
13/12/2017 - Muito além da mala - Bernardo Mello Franco -  Um homem sai apressado de uma pizzaria nos Jardins....
13/12/2017 - Lula é candidato a não ser candidato - Jorge Serrão - É hora de meter a mala e falar a...
12/12/2017 - A inspeção veicular não pode ser outro propinoduto - Jorge Serrão - O Brasil tem o vício maldito de copiar idéias...
11/12/2017 - Aldous Huxley e Shakespeare - admirável mundo novo ----- Theófilo Silva - A belíssima sentença Admirável Mundo Novo, que dá título...
10/12/2017 - O marechal Castelo Branco criticou a fúria carcerária - Elio Gaspari - Em maio de 1965, um coronel que chefiava inquéritos...
10/12/2017 - A complexidade da simplicidade - Carlos SA - “SÁBIO É AQUELE QUE CONHECE OS LIMITES DA PROPRIA...
10/12/2017 - Este Brasil - Janio de Freitas - Ninguém, parece mesmo que ninguém, tenta pensar o Brasil...
Destaques
Registros Históricos - Carlos I.S. Azambuja
São registros históricos que comprovam a veracidade do que dizemos quase que diariamente. Quem diz o contrário é ignorante, por não ter nascido naquela época e não haver estudado a História verdadeira (com agá maiúsculo), ou por ser mal intencionado mesmo, como...



Pólo de Cinema. O sonho não acabou, ainda - Pedro Lacerda*
Não é a primeira vez que alguém tenta acabar com o sonho do Pólo de Cinema e Vídeo Grande Otelo, localizado em nossa Sobradinho. Desta vez, nos parece que é o próprio governo que está pretendendo dar um fim...



Marcada para segunda-feira,4, Audiência Pública para tratar do Ribeirão Sobradinho
Está marcado para acontecer dia 4 de novembro, uma segunda-feira, Audiência Pública proposta pela Câmara Legislativa do Distrito Federal exclusiva para tratar do Ribeirão Sobradinho. O evento será às 15 horas na Casa do Ribeirão Q. 9 Área Especial, frente para...



Busca