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  Regras do Blog | Perfil do tpadua 25 de junho de 2017  


13/06/2017
O martírio de Nilton Santos - Nelson Rodrigues

Amigos, minha última obsessão é a seguinte: — o tapa que Nílton Santos deu no juiz* . O episódio ainda é assunto, é notícia, é manchete. O craque foi arrastado a julgamento. Em vão, bateu às portas da indulgência humana. Ninguém lhe concedeu uma atenuante. A impressão que se teve é que o tapa de Nílton Santos está entre os sete pecados capitais.

Cabe então a pergunta: — a coisa merecia esse estardalhaço? Merecia essa promoção? Receio que sim e explico. Não há tapa intranscendente. Agressor, vítima e testemunhas estão implicados na mesma humilhação. Eu me lembro de uma cena que vi, faz tempo, numa luta de Éder Jofre. Na altura do segundo ou terceiro round, um espectador ergue-se, aos uivos. Vociferava para o ringue: — “Parem! Parem!”. Cercado por três ou quatro, o sujeito foi arrastado. Mais desgrenhado e ululante do que um jeremias, ele ia soluçando: — “Não se bate na cara de ninguém! De ninguém!”.

Parece que a Justiça Esportiva, sensível à transcendência do tapa, levou o castigo às últimas conseqüências. E, de repente, Nílton Santos lembrou o martírio de Dreyfus. Como se sabe, diante da tropa formada, arrancaram os bordados de Dreyfus, depenaram as dragonas, arrancaram os botões, derrubaram o boné. Tudo isso ao som de tambor, cometa, o diabo. Nílton Santos quase teve essa degradação total.

E não ocorreu a ninguém que um tapa pode ter a sua ética profunda. Nílton Santos bateu por quê? Sim, por quê? Vamos reconstituir o fato. Segundo todas as testemunhas, o árbitro correu para o jogador e espetou-lhe o dedo na cara. Vamos e venhamos: — é meio triste para um adulto, casado, pai de filhos, sofrer uma desfeita assim pública e assim hedionda.

A gravidade de uma humilhação depende de público. Se os dois estivessem num terreno baldio, apenas assistidos por alguma cabra vadia, a coisa não teria nenhum patético. É a testemunha que valoriza e dramatiza as ofensas. Nílton Santos e o juiz brigaram num campo de futebol. Gente por toda parte, e repito: — gente pendurada até no lustre. Dirá alguém que o jogador agrediu. Convém lembrar: — dedo na cara também é agressão.

Eis o problema: — um juiz pode agredir e um jogador não pode revidar? Dirá algum fariseu que o atleta não pode dar tapas como um gângster. Ora, mil vezes mais grave, mais solene, mais hierático do que o atleta é o ser humano. Um jogador não pode ser, nunca, a antipessoa. E, afinal de contas, se houvesse justiça real, o jogador que se portou como homem — e por isso mesmo — teria de ser desagravado, promovido, premiado.

Mas, no caso, há também um aspecto desesperador. Refiro-me à infalibilidade que se confere ao juiz de futebol. Tem um poder que, hoje, negamos ao rei da Arábia Saudita. A tirania mais cruel e obtusa tem seus limites. E só o juiz de futebol paira acima do bem e do mal. Sim, depois do que fizeram com Maria Antonieta, ou com Maria Stuart, ou com Inês de Castro — não se entende que um apito, um reles apito, possa tornar alguém sagrado, intangível.

[O Globo, 12/3/1964]

* Nílton Santos, 39 anos e bicampeão do mundo, foi suspenso por sessenta dias por agredir Armando Marques. 




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