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  Regras do Blog | Perfil do tpadua 25 de junho de 2017  


23/06/2017
Um escrete de feras - Nelson Rodrigues

De vez em quando, alguém me pergunta: — “Existe mesmo a grã-fina das narinas de cadáver?”. E eu, então, tenho que repisar a velha história. Para situá-la no tempo e no espaço, explico que foi há quatro ou cinco meses, no Estádio Mário Filho. Era um jogo do Botafogo com... Mas não importa o adversário.

Ia eu com o Marcello Soares de Moura. Nada como uma carona para aproximar os homens. E o Marcello sempre me leva para o futebol no seu Volks, cor de vinho tinto. Súbito, eu a vejo no Estádio Mário Filho. Sem ser o Dedo de Deus, é altíssima. Anda com o perfil alto das sonâmbulas. Baixo a voz para o Marcello: — “Aquela tem narinas de cadáver”. O amigo olha e confirma. E era grã-fina. Subimos no mesmo elevador. Os presentes, inclusive eu, não tiravam os olhos da grã-fina.

Mas coisa curiosa: — todos olhavam, sem saber por que olhavam. Vocês entendem? Ninguém sabia explicar a própria curiosidade. Para mim, eram, e só podiam ser, as narinas de cadáver. Saltamos no sexto andar do estádio. Foi aí que, sempre ereta como as sonâmbulas, vira-se para o marido: — “Fulano”. Usou um diminutivo qualquer, que não me lembro, e fez a pergunta: — “Quem é a bola?”.

Nem eu, nem o Marcello rimos porque as narinas de cadáver exerciam sobre nós o que os criminologistas chamam de “coação irresistível”. Estávamos fisicamente acuados. Mas ficou no ar a pergunta em flor: — “Quem é a bola?”. Lembrei-me das narinas de cadáver porque, em recentíssima pesquisa, o IBOPE apurou o seguinte: — 50% dos meus leitores são leitoras. Esse público feminino é, a um só tempo, doce e terrível.

Faço a mim mesmo a pergunta: — por que tenho, entre os meus leitores, tantas leitoras? Será porque trato bem a mulher, qualquer mulher? Realmente, acho a mulher menos comprometida. Não, não é isso o que eu queria dizer. Queria dizer “menos corrompida”. Sim, ela se corrompe menos do que o homem. Na mais degradada das mulheres sobrevive algo de intacto, intangível, eterno. Esse mínimo de inocência sempre a salva. E a simpatia que aqui confesso, mais que um sentimento secundário e superficial, é uma irradiação de profundezas.

Estou dizendo tudo isso porque o meu assunto de hoje é supostamente antifeminino. Simplesmente, vou escrever sobre futebol. Entre as minhas leitoras, muitas jamais entraram no Estádio Mário Filho; e suspiram: — “Eu não gosto de futebol”. Outras poderiam perguntar, como a grã-fina das narinas de cadáver: — “Quem é a bola?”. Todavia, há um momento em que todos entendem de futebol e gostam de futebol. É quando está em causa o destino do escrete. Na hora de seleção, até a grã-fina das narinas de cadáver adquire uma súbita clarividência.

Podemos dividir os nossos assuntos em “interessantes” e “vitais”. Um dos assuntos “vitais” do Brasil é a seleção. E, justamente, já se pode falar numa “crise do escrete”. Felizmente, é uma crise gráfica, uma crise impressa, uma crise de colunistas, locutores e manchetes. Ah, o futebol dinamiza uma tal massa de interesses, negócios, egoísmos, vaidades. Estranho mundo, em que não se dá um passo sem esbarrar, sem tropeçar, sem pisar nas víboras inumeráveis.

Tudo começou quando João Havelange teve a grande coragem de escolher o João Saldanha para treinador da seleção. Pela primeira vez, o escrete passava a ser um problema estritamente técnico e nada político. O presidente da CBD não quis agradar a A ou B, mas juntar os melhores. Já sabemos que a competência é amargamente antipatizada no futebol brasileiro. Claro, e repito: — a competência tira o pão da boca dos idiotas enfáticos e dos aproveitadores vorazes. Eles ficam sem ter o que fazer e o que dizer. Vagam pelas esquinas e pelos botecos, sem função e sem destino.

O excelente Geraldo Bretas, de São Paulo, passou a pregar uma guerra de secessão entre o futebol carioca e o paulista. Disse, perante as câmeras e microfones da TV Globo: — “São Paulo deve negar seus jogadores”. Bem se vê que o nosso Bretas não pensava nem no Brasil, nem em São Paulo. Ou por outra: — pensava em São Paulo Machado de Carvalho. Mas o agitado confrade não é um caso único. Há vários Bretas, inclusive cariocas. Mas o Bretas tem, na pior das hipóteses, a virtude da nitidez. Diz o que tem de dizer, escreve o que tem de escrever. Não guarda bobagens para o dia seguinte.

Todavia, o João Havelange veio a descobrir que o pior Bretas é o falso amigo, de falsa solidariedade. Mas a conspiração contra a competência evoluía em silêncio. E os Bretas confessos ou inconfessos, introspectivos ou ululantes, estavam apenas esperando um pretexto explosivo. Esse pretexto veio de um foul no recente Brasil x Peru* . Gérson levou uma cotovelada que foi uma nítida agressão. Pouco depois, revidava com um foul. Ora, o foul é nosso velho conhecido. Oitenta milhões de brasileiros são íntimos do foul. Quando Didi quebrou a perna de Mendonça e esperou seis anos para ir à forra com Pavão — não se gastou tanto papel e tinta, nem houve nenhum berro gráfico. Mendonça morreu para o futebol, azar o dele. Os bons rapazes da imprensa não viram no fato nada de épico ou de sublime.

Mas eu explico: — naquela ocasião, não havia interesses criados e frustrados. A fratura de Mendonça só interessou mesmo à vítima e familiares. A de Pavão, idem. Agora, não. Agora havia uma "crise” latente que o foul de Gérson detonou. Vocês sabem o que aconteceu depois. Um outro peruano deu um pontapé no brasileiro. Este revidou. O juiz expulsa os dois. Minutos depois, com o jogo ainda interrompido, um peruano, lá no meio do campo, agride um brasileiro, que nada fez, nem queria fazer. Vejamos: — como devia portar-se o nosso patrício?

Como 50% dos meus leitores são leitoras, é possível que a grã- fina das narinas de cadáver esteja me lendo. Ela não sabe ainda quem é a bola. Mesmo assim, faço-lhe a pergunta: — “O brasileiro deve aceitar, em sua própria terra, a bolacha de um peruano?”. Boa parte da crônica acha que sim. Considera um “espetáculo degradante” o uso que fizemos de uma legítima defesa. Houve o sururu, e daí? Na Inglaterra é mil vezes pior. Lá, brigam os 22 jogadores, as duas torcidas, o juiz, os bandeirinhas e gandulas. Depois, vai todo mundo para a estação quebrar locomotivas. E é um povo gigantesco, que salvou o mundo. Se, em Dunquerque, a Inglaterra tivesse capitulado, os nazistas fariam provas hípicas montando brasileiros.

Mas a bordoada, no caso, é o que há de mais intranscendente. O foul de Gérson não espantaria ninguém. O que se quer derrubar é o João Saldanha, ainda que, para tanto, seja preciso derrubar o escrete. Tudo serve de pretexto. O nosso João, num dos seus arroubos de Tartarin, disse que seu ideal era um “escrete de feras”. Na pior das hipóteses, fez uma metáfora.

Imaginem que os interesses contrariados estão uivando até contra a metáfora. Eis o que eu queria dizer à Guanabara, a São Paulo, Rio Grande, Alagoas, Pernambuco e a todo o Brasil: — o João está maravilhosamente certo. O “escrete de feras” é uma velha utopia de todos os brasileiros, inclusive a grã-fina das narinas de cadáver. A humilhação de 50, jamais cicatrizada, ainda pinga sangue. Todo escrete tem a sua fera. Naquela ocasião, a fera estava do outro lado e chamava-se Obdulio Varela. O escrete do João terá onze Obdulios.

Imaginem vocês que, ontem, recebo um interurbano de São Paulo. Era um leitor paulista, indignado. Com um horror indescritível, vira locutores bandeirantes torcendo contra o escrete nacional. No fim, berravam: — “Vitória imerecida! Vitória imerecida!”. Não eram paulistas, não eram brasileiros, não eram nada: — eram súbitos índios peruanos. E pedia o leitor que eu protestasse, em nome de São Paulo, junto aos meus colegas de lá. Amigos, não sei se vocês conhecem a história do português que era credor de um circo. O circo faliu e o dono, como pagamento, deu-lhe o mais bonito leão da casa. E sai o português com o leão. Mas achando a juba do bicho muito grande, mandou passar-lhe a máquina zero. Imediatamente, o leão começou a ser olhado como um cachorro amarelo. No dia seguinte, em vez de rugir, latia. Quero concluir dizendo: — no escrete do João, ninguém vai ser cachorro amarelo.

[O Globo, 14/4/1969] 

* Brasil 3 x 2 Peru, 9/4/1969, no Estádio Mário Filho.




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