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  Regras do Blog | Perfil do tpadua 18 de novembro de 2017  


11/07/2017
Os entendidos - Nelson Rodrigues

Por que o Brasil não gosta do Brasil e por que nos falta um mínimo de auto-estima? É a pergunta que me faço, sem lhe achar a resposta. Dirão vocês que exagero e que não é tanto assim, que diabo. Responderei que é tanto assim ou pior. Vocês se lembram da Passeata dos 100 Mil, a famosíssima Passeata dos 100 Mil?

Os meus leitores, se é que os tenho, já repararam que eu a cito muito. Posso dizer que é uma das minhas referências mais obsessivas. E por quê? Quem quiser entender as nossas elites e o seu fracasso encontrará nos 100 Mil um dado essencial. Não havia, ali, um único e escasso preto. E nem operário, nem favelado, e nem torcedor do Flamengo, e nem barnabé, e nem pé-rapado, nem cabeça-de-bagre. Eram os filhos da grande burguesia, os pais da grande burguesia, as mães da grande burguesia. Portanto, as elites.

E sabem por que e para que se reunia tanta gente? Para não falar no Brasil, em hipótese nenhuma. O Brasil foi o nome e foi o assunto riscado. Falou-se em China, falou-se em Rússia, ou em Cuba, ou no Vietnã. Mas não houve uma palavra, nem por acaso, nem por distração, sobre o Brasil. Picharam o nosso Municipal com um nome único: — Cuba. Do Brasil, nada? Nada.

As elites passavam gritando: — “Vietnã, Vietnã, Vietnã!”. E, quanto ao Brasil, os 100 Mil faziam um silêncio ensurdecedor. Tanto vociferaram o nome de Vietnã, de Cuba e China, que minha vontade foi replicar-lhes: — “Rua do Ouvidor, rua do Ouvidor, rua do Ouvidor!”. Simplesmente, o Brasil não existe para as nossas elites. Foi essa a única verdade que trouxe, em seu ventre, a Passeata dos 100 Mil.

Estou apresentando um exemplo e poderia citar muitos outros. Vamos ficar por aqui. Há um momento, todavia, em que todos se lembram do Brasil, em que 90 milhões de brasileiros descobrem o Brasil. Aí está o milagre do escrete. Fora as esquerdas, que acham o futebol o ópio do povo, fora as esquerdas, dizia eu, todos os outros brasileiros se juntam em torno da seleção. É, então, um pretexto, uma razão de auto-estima. E cada vitória compensa o povo de velhas frustrações, jamais cicatrizadas.

Não sei se contei o caso de certo amigo meu. É o que se chama um boa-vida. Sua mesa tem vinhos raros e translúcidos. Um dia, ocorreu-lhe um capricho voluptuoso e tomou um banho de leite de cabra. Perguntei-lhe: — “Que tal?”. Respondeu: — “Assim, assim”. Duas vezes por ano, dá uma volta pela Europa. Pois bem. É esse amigo que me confessa: — “Só me sinto brasileiro quando o escrete ganha”. Fora disso, passa anos sem se lembrar do Pão de Açúcar ou sem pensar na Vista Chinesa, recanto ideal para matar turista argentino.

Domingo ele bateu o telefone para mim. No seu desvario, berrava: — “Ganhamos da Inglaterra!”* . Chorava: — “Como é bom ser brasileiro!”. E, durante toda a Copa, será um brasileiro de esporas e penacho. Também a grã-fina das narinas de cadáver me ligou. Soluçava: — “Brasil! Brasil! Brasil!”. Mais tarde, eu a vi, patética, enrolada na bandeira brasileira. Parecia uma Joana d’Arc da seleção.

O meu assunto de hoje é, justamente, o escrete que está maravilhando o mundo. Tem sua história, tem a sua lenda. Antes de mais nada, não pensem que se improvisa um escrete da noite para o dia. Não. É todo um secreto, um misterioso, um profundo trabalho de gerações. Até que, um dia, há o milagre: — juntam-se, então, no mesmo time, um Pelé e um Gérson, um Rivelino, um Jairzinho.

Vocês viram o nosso gol contra a Inglaterra. Foi uma obraprima. Começou em Tostão, que passou a Paulo César. Paulo César novamente a Tostão. Este trabalha a bola. A área inglesa era uma ferocíssima selva de botinadas. Cada milímetro estava ocupado. Tostão dribla um inglês, e mais outro inglês, um terceiro inglês. E vinham outros, e mais outros e outros mais. Tostão vira-se e entrega a Pelé. Três adversários envolvem o sublime crioulo. Este, rápido, empurra para Jairzinho, enganando todo mundo.

Era um gol que não podia ser feito porque a muralha de cabeças estava lá, inultrapassável. Mas tudo teve a solução fulminante do talento. A bola deslizou para Jairzinho. No seu banco, Alf Ramsey, o técnico inglês, parecia certo de que seus jogadores iam frustrar o ímpeto e o virtuosismo dos nossos.

Não sei se vocês sabem, mas esse Ramsey é um caso de imodéstia delirante. Declarara à imprensa internacional: — “A Inglaterra vai ganhar, porque o Brasil não tem defesa. Félix, Brito e Piazza são horrorosos”. Vejam a polidez, a cerimônia, a reverência desse cavalheiro. Os rapazes da imprensa perguntaram: — “E Pelé?”. Achou graça: — “Ora, Pelé”. E disse que tinha meios e modos de apagar o Rei. O que Ramsey queria dizer, por outras palavras, é que os brasileiros não são de nada.

Volto ao passe de Pelé. A bola está no pé de Jairzinho. Esquecia-me de contar uma outra do mesmo Ramsey. Ele também declarou que os negros brasileiros rebolam muito. Não disse rebolam, mas ponham aí uma palavra equivalente. Pois bem: — eis o fato: — Jairzinho arranca. A bola sabe quando vai ser gol e se ajeita para o gol. E Jairzinho, que era a maior saúde em campo, ainda ultrapassou um inglês; e encheu o pé. Era o gol de uma das mais belas, mais perfeitas, irretocáveis vitórias brasileiras de todos os tempos.

O próprio Ramsey, apesar de sua máscara de ferro, dizia depois do jogo que, na altura do gol brasileiro, a defesa inglesa estava entregue às baratas. O certo, o lógico é que, depois do gol, as coisas acontecessem numa progressão fulminante de catástrofe. Mas diz o Ramsey: — “Os brasileiros recuaram para defender o 1 x 0. O que seria de nós se eles não recuassem?”.

Mas não tem sido fácil a vida do escrete. Por exemplo: — Paulo César sofreu em São Paulo uma experiência inédita: — uma vaia de noventa minutos. Isso corresponde a um linchamento. Só não entendo, até hoje, como ele conseguiu sobreviver. Nem se pense que foi ele o único. Mas não vamos amaldiçoar as vaias ao escrete. Elas o fizeram, elas o virilizaram. A jornada brasileira no México é uma vingança contra as vaias.

E o que a seleção e, antes da seleção, o que sofreu o futebol brasileiro nas mãos dos “entendidos”. Tenho que abrir, neste momento, um tópico especial. O que é o “entendido”? Veremos se posso caracterizá-lo. É o cronista que esteve, em 66, na Inglaterra, e voltou com a seguinte descoberta: — o futebol europeu em geral e o inglês em particular eram muito melhores do que o nosso. Estávamos atrasados de quarenta anos para mais. Quanto à velocidade, era uma invenção européia. Os brasileiros andavam de velocípede e os europeus a jato. O “entendido” afirmava mais: — os times de lá não deixavam jogar. Essa foi genial. Imaginem vocês um time jogando e o adversário assistindo, como numa frisa de teatro. Por outro lado, o preparo físico dos europeus era esmagador. Como se não bastasse tudo o mais, ainda descobriu o “entendido”: — o futebol moderno não é bonito, não quer ser bonito e escorraçou o belo e artístico de suas cogitações. Bonito e artístico é o futebol subdesenvolvido de Brasil e outros.

O jogo Brasil x Inglaterra desmontou vários mitos. A tal velocidade não existe. Os ingleses tinham períodos enormes em que preferiam o velocípede ao jato. A saúde de vaca premiada é a nossa e não a deles. Não há no time adversário um jogador com a furiosa plenitude de um Jairzinho ou de um Pelé. Uma mentira a história de que os europeus não deixam jogar. E como não deixam, se Tostão comeu três, Pelé enganou mais três e Jairzinho ultrapassou mais um, antes de fazer o gol? O pau-de-arara de ouro, Clodoaldo, corre mais do que todo o escrete inglês junto. E vem o “entendido” e declara, solene, enfático, hierático: — “Nós não somos os melhores”. Pois os lorpas, os pascácios, acreditam. Basta Brasil x TchecoEslováquia, ou Brasil x Inglaterra que tudo não passa de uma impostura inédita. Vou concluir: — o “entendido” só não se torna abominável porque o ridículo o salva.

[O Globo, 10/6/1970] 

Brasil 1 x 0 Inglaterra, 7/6/1970, em Guadalajara. Segundo jogo das oitavas-de-final.

 




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