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  Regras do Blog | Perfil do tpadua 18 de novembro de 2017  


03/07/2017
Nelson, Mao e Pelé - Nelson Rodrigues

Amigos, vocês conhecem, decerto, o maior feito de Mao Tsé- tung, nas suas últimas 25 encarnações. Nunca se viu nada parecido. Mas vamos aos fatos. Um dia, o grande homem mandou ver a relação de todos os recordes mundiais de natação, passados, presentes e futuros. Viu os tempos e até achou: — “Esses caras são umas barcas da Cantareira”.

E resolveu mostrar que, além do mais, é um gênio natatório. Chamou a imprensa, o rádio e a televisão e caiu n’água. Primeiro, subiu num trampolim. Queria começar com um salto ornamental. Atirou-se lá de cima e caiu sentado como um aqualouco. Oitocentos milhões deram urros de admiração. Ao contrário dos demais recordistas da especialidade, em vez de mergulhar de cabeça, o que seria uma trivialidade, o líder genial mergulhava sentado.

Logo se viu que tudo podia acontecer a Mao Tsé-tung, menos morrer afogado. Graças a sua barriga insubmersível (e mais insubmersível que o Titanic e o Bismarck), ele poderia, se o quisesse, boiar eternamente. Toda a imprensa local e estrangeira estava de cronômetro na mão. Logo se viu que seu tempo seria fantástico. Ele não usou os estilos convencionais, como os outros nadadores. Enquanto os estilistas dos outros povos usam nado livre, de costas ou de peito, ele preferiu uma forma que só as crianças usam: — cachorrinho. Fez dezesseis longos e dilatados quilômetros, nadando cachorrinho. No fim, verificou-se que superara todas as velocidades passadas, presentes e futuras.

Diante de um feito inédito na História e na Lenda, Mao Tsé- tung transcendeu todos os limites humanos. Oitocentos milhões de chineses prostraram-se diante do divino Chefe. Em seguida o governo transformou aquele dia no maior feriado nacional do país. Vocês entendem? O dia em que Mao Tsé-tung realizou tal prova tornou-se uma espécie de 14 de Julho chinês. E como a China comemora, anualmente, a proeza sobrenatural? Da seguinte maneira: — atirando-se n’água de sapatos, gravata e guarda-chuva. E como muitos não sabem nadar, uns 100 mil chineses morrem, anualmente, afogados. E morrem felizes, por se tratar de um suicídio nacional.

Mas vejam vocês: — um brasileiro realizou algo mais impressionante do que o gorducho deus chinês. Refiro-me a Pelé, o divino crioulo. Embora sem ter a barriga insubmersível de Mao, Pelé está fazendo mil gols* . Esse milheiro é algo de irreal e deslumbrante como As mil e uma noites. Às vezes, eu me pergunto, no meu assombro: — “Como é que um só sujeito pode fazer mil gols?”. Como diz a minha vizinha, gorda e patusca: — “Mil gols não são dez, nem quinze”.

É claro que esse prodígio não podia passar em branca nuvem. Por isso mesmo, a seção de esportes de O Globo teve a idéia luminosíssima de celebrar os mil gols. Vai haver uma festa inédita na história do nosso futebol. E, realmente, não há homenagem mais merecida. Só imagino o envenenado despeito, a amarga frustração de Mao Tsé-tung quando souber que um sujeito chamado Pelé, de um certo país chamado Brasil, enfiou tantas bolas na caçapa. Não se iludam: — se o Chefe chinês tivesse tido a idéia, já teria completado os mil gols, e muito antes de Pelé. Vamos imaginar a cena: — o grande homem concorrendo com Pelé. Mao, com a barriga maior que a do Chacrinha, com os calções batendo nas canelas, chutando em todas as direções.

Como se sabe, no Estado totalitário tudo é possível. E Mao Tsé- tung, num só jogo, faria o milheiro, com um pé nas costas. Toda a imprensa de lá, o rádio e a televisão aceitariam o deslavado milagre como tal. Graças a Deus, nenhum puxa se lembrou de sugerir-lhe o assombroso feito. Pelé ficará, para sempre, na História e na Lenda, como único autor dos mil gols. Só imagino a comemoração de O Globo. Todas as mulheres bonitas da cidade estarão presentes, inclusive a grã-fina das narinas de cadáver. Não sei que misteriosa fascinação exerce o doce crioulão sobre as mulheres bonitas do Brasil. Eu acho que, depois, Pelé devia fazer a volta olímpica, mas na bandeja, e de maçã na boca, como um leitão assado.

[O Globo, 13/11/1969]

* Faltando um gol para completar o milésimo de Pelé, a grande pergunta passou a ser: onde e contra quem seria o “gol mil”? Encaminhado por Carlos SA.




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