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  Regras do Blog | Perfil do tpadua 28 de julho de 2017  


01/06/2017
O Eichmann do apito - Nelson Rodrigues

O EICHMANN DO APITO.

 

Amigos, vencemos o Chile* . E, neste momento, eu não vou quebrar lanças em prol do estilo, como queria Bilac. E pelo contrário. Numa hora de farto pileque cívico, eu quero ter o mau gosto de um orador de gafieira. Quero falar em bandeiras “drapejando”. E vamos e venhamos: — foi uma vitória colossal, uma selvagem vitória. Estava tudo contra nós, rigorosamente tudo. Até os Andes tinham enfiado uma máscara até as orelhas.

 

Na minha crônica anterior, antes do jogo, eu falava na solidão do escrete. Jamais um time de futebol ficara tão só. Mas eu escrevi que o brasileiro é ainda maior quando solitário. Ponham o brasileiro numa ilha deserta. Ele sozinho como um Robinson Crusoe, ou apenas com uma arara no ombro. E o brasileiro, sem mais ninguém, bebendo água em cuia de queijo Palmira, será um rei shakespeariano, terá um peito de césar proclamado. Então faço a pergunta: — que fizemos nós, ontem, em Santiago? Éramos onze gatos pingados contra milhões enfurecidos.

 

Mas aí é que está. O Brasil estava só, mas tinha Garrincha. Feliz do povo que pode esfregar um Garrincha na cara do mundo! E o Mané, com suas pernas tortas e fulgurantes, com o seu olho rútilo e também torto, pôs os Andes de gatinhas, ou de cócoras, sei lá. Quando ele enfiou um gol e depois outro, isso aqui foi, como diria um orador de gafieira, foi uma pátria constelada de garrinchas.

 

E o patético é que, quinta-feira, o video-tape de Brasil x Inglaterra nos dera um versão deprimente do escrete. O povo não sabia como conciliar as duas coisas: — o delírio dos locutores e a exata veracidade da imagem. Após a batalha de ontem, eu vi tudo. A verdade está com a imaginação dos locutores. E repito: — a imaginação está sempre muito mais próxima das essências. Ao passo que o video-tape é uma espécie de lambe-lambe do Passeio Público, que retira das pessoas toda a sua grandeza humana e esvazia os fatos de todo o seu patético.

 

Disseram os locutores que o Brasil fizera, contra a Inglaterra, uma exibição deslumbrante. Pura imaginação e, por isso mesmo, altamente veraz. O video-tape demonstrou o contrário. Azar da imagem. Mais deslumbrante ainda foi a jornada de ontem. Amigos, todo o Chile se levantou contra nós. A imprensa, o rádio, a TV, o homem de rua, as crianças — quiseram triturar emocionalmente a “seleção de ouro”. Nunca se fez um massacre psicológico tão feroz contra alguém. O futebol passou para um plano secundário. O objetivo único foi, repito, a liquidação psicológica dos craques brasileiros.

 

Mas o gostoso é que o escrete do Brasil em nenhum momento — antes, durante ou depois — teve medo. Foi um time, foi uma equipe imaculada de medo. E, já em campo, apareceu um outro adversário, o mais atro, o mais torvo adversário: — o juiz. Então, o Brasil teve de lutar contra 75 mil espectadores, contra os jornais, contra o rádio, contra a TV, contra os carabineiros, contra a cordilheira, contra tudo, contra todos e mais: — contra o árbitro. No seu medo abjeto da multidão; no pavor de ser cuspido e malhado como um judas de sábado de Aleluia — ele roubou com um descaro gigantesco. Sim, a pusilanimidade deu-lhe uma força, um poder, uma crueldade, uma dimensão inexcedíveis. E, no seu lúgubre cinismo, o sujeito só faltou apitar hands nos arremessos laterais brasileiros. Amigos, temos aí um Eichmann do apito. O que ele fez com Garrincha não tem perdão.

 

Garrincha! Desde o começo da crônica que eu queria falar no Mané. E estou-me perdendo em floreios como faria o já referido orador de gafieira. Garrincha foi a maior figura do jogo, a maior figura da Copa do Mundo e, vamos admitir a verdade última e exasperada: — a maior figura do futebol brasileiro desde Pedro Álvares Cabral. Quando eu dizia que Garrincha era varado de luz como um santo de vitral, os idiotas da objetividade torciam o nariz. Reconheço que faltava ao Mané, realmente, um toque, ou retoque, de martírio.

 

Desde ontem, porém, o Mané é mártir oficial, mártir chapado, da cabeça aos sapatos. O lívido, o gelado Eichmann do apito o expulsou, com a hedionda conivência do bandeirinha Esteban Marino. É a santidade, amigos. A coisa foi tão indigna como o seria a expulsão de são Francisco de Assis. E ainda por cima apedrejaram o Mané, tiraram o seu tépido, o seu doce, o seu rútilo sangue. É santo, sim, sem efeito de retórica, sem arranjo literário, tão santo como um são Sebastião seminu e flechado.

 

Amigos, como é mais linda a vitória roubada. O juiz gatuno deu ao nosso feito uma dimensão mais comovida e mais deslumbrante. Não faz mal o frango ou, por outra, o peru que Gilmar engoliu. O nosso goleiro come seus frangos, seus perus, mas não se deprime, não se degrada. Não foi apenas a vitória do escrete. Foi sobretudo a vitória do homem genial do Brasil.

 

[O Globo, 14/6/1962]

 

* Brasil 4x2 Chile, 13/6/1962, em Santiago, pelas semifinais da Copa do Mundo. 

 

 

O EICHMANN DO APITO.

 

Amigos, vencemos o Chile* . E, neste momento, eu não vou quebrar lanças em prol do estilo, como queria Bilac. E pelo contrário. Numa hora de farto pileque cívico, eu quero ter o mau gosto de um orador de gafieira. Quero falar em bandeiras “drapejando”. E vamos e venhamos: — foi uma vitória colossal, uma selvagem vitória. Estava tudo contra nós, rigorosamente tudo. Até os Andes tinham enfiado uma máscara até as orelhas.

 

Na minha crônica anterior, antes do jogo, eu falava na solidão do escrete. Jamais um time de futebol ficara tão só. Mas eu escrevi que o brasileiro é ainda maior quando solitário. Ponham o brasileiro numa ilha deserta. Ele sozinho como um Robinson Crusoe, ou apenas com uma arara no ombro. E o brasileiro, sem mais ninguém, bebendo água em cuia de queijo Palmira, será um rei shakespeariano, terá um peito de césar proclamado. Então faço a pergunta: — que fizemos nós, ontem, em Santiago? Éramos onze gatos pingados contra milhões enfurecidos.

 

Mas aí é que está. O Brasil estava só, mas tinha Garrincha. Feliz do povo que pode esfregar um Garrincha na cara do mundo! E o Mané, com suas pernas tortas e fulgurantes, com o seu olho rútilo e também torto, pôs os Andes de gatinhas, ou de cócoras, sei lá. Quando ele enfiou um gol e depois outro, isso aqui foi, como diria um orador de gafieira, foi uma pátria constelada de garrinchas.

 

E o patético é que, quinta-feira, o video-tape de Brasil x Inglaterra nos dera um versão deprimente do escrete. O povo não sabia como conciliar as duas coisas: — o delírio dos locutores e a exata veracidade da imagem. Após a batalha de ontem, eu vi tudo. A verdade está com a imaginação dos locutores. E repito: — a imaginação está sempre muito mais próxima das essências. Ao passo que o video-tape é uma espécie de lambe-lambe do Passeio Público, que retira das pessoas toda a sua grandeza humana e esvazia os fatos de todo o seu patético.

 

Disseram os locutores que o Brasil fizera, contra a Inglaterra, uma exibição deslumbrante. Pura imaginação e, por isso mesmo, altamente veraz. O video-tape demonstrou o contrário. Azar da imagem. Mais deslumbrante ainda foi a jornada de ontem. Amigos, todo o Chile se levantou contra nós. A imprensa, o rádio, a TV, o homem de rua, as crianças — quiseram triturar emocionalmente a “seleção de ouro”. Nunca se fez um massacre psicológico tão feroz contra alguém. O futebol passou para um plano secundário. O objetivo único foi, repito, a liquidação psicológica dos craques brasileiros.

 

Mas o gostoso é que o escrete do Brasil em nenhum momento — antes, durante ou depois — teve medo. Foi um time, foi uma equipe imaculada de medo. E, já em campo, apareceu um outro adversário, o mais atro, o mais torvo adversário: — o juiz. Então, o Brasil teve de lutar contra 75 mil espectadores, contra os jornais, contra o rádio, contra a TV, contra os carabineiros, contra a cordilheira, contra tudo, contra todos e mais: — contra o árbitro. No seu medo abjeto da multidão; no pavor de ser cuspido e malhado como um judas de sábado de Aleluia — ele roubou com um descaro gigantesco. Sim, a pusilanimidade deu-lhe uma força, um poder, uma crueldade, uma dimensão inexcedíveis. E, no seu lúgubre cinismo, o sujeito só faltou apitar hands nos arremessos laterais brasileiros. Amigos, temos aí um Eichmann do apito. O que ele fez com Garrincha não tem perdão.

 

Garrincha! Desde o começo da crônica que eu queria falar no Mané. E estou-me perdendo em floreios como faria o já referido orador de gafieira. Garrincha foi a maior figura do jogo, a maior figura da Copa do Mundo e, vamos admitir a verdade última e exasperada: — a maior figura do futebol brasileiro desde Pedro Álvares Cabral. Quando eu dizia que Garrincha era varado de luz como um santo de vitral, os idiotas da objetividade torciam o nariz. Reconheço que faltava ao Mané, realmente, um toque, ou retoque, de martírio.

 

Desde ontem, porém, o Mané é mártir oficial, mártir chapado, da cabeça aos sapatos. O lívido, o gelado Eichmann do apito o expulsou, com a hedionda conivência do bandeirinha Esteban Marino. É a santidade, amigos. A coisa foi tão indigna como o seria a expulsão de são Francisco de Assis. E ainda por cima apedrejaram o Mané, tiraram o seu tépido, o seu doce, o seu rútilo sangue. É santo, sim, sem efeito de retórica, sem arranjo literário, tão santo como um são Sebastião seminu e flechado.

 

Amigos, como é mais linda a vitória roubada. O juiz gatuno deu ao nosso feito uma dimensão mais comovida e mais deslumbrante. Não faz mal o frango ou, por outra, o peru que Gilmar engoliu. O nosso goleiro come seus frangos, seus perus, mas não se deprime, não se degrada. Não foi apenas a vitória do escrete. Foi sobretudo a vitória do homem genial do Brasil.

 

[O Globo, 14/6/1962]

 

* Brasil 4x2 Chile, 13/6/1962, em Santiago, pelas semifinais da Copa do Mundo. 

 

O EICHMANN DO APITO.

 

Amigos, vencemos o Chile* . E, neste momento, eu não vou quebrar lanças em prol do estilo, como queria Bilac. E pelo contrário. Numa hora de farto pileque cívico, eu quero ter o mau gosto de um orador de gafieira. Quero falar em bandeiras “drapejando”. E vamos e venhamos: — foi uma vitória colossal, uma selvagem vitória. Estava tudo contra nós, rigorosamente tudo. Até os Andes tinham enfiado uma máscara até as orelhas.

 

Na minha crônica anterior, antes do jogo, eu falava na solidão do escrete. Jamais um time de futebol ficara tão só. Mas eu escrevi que o brasileiro é ainda maior quando solitário. Ponham o brasileiro numa ilha deserta. Ele sozinho como um Robinson Crusoe, ou apenas com uma arara no ombro. E o brasileiro, sem mais ninguém, bebendo água em cuia de queijo Palmira, será um rei shakespeariano, terá um peito de césar proclamado. Então faço a pergunta: — que fizemos nós, ontem, em Santiago? Éramos onze gatos pingados contra milhões enfurecidos.

 

Mas aí é que está. O Brasil estava só, mas tinha Garrincha. Feliz do povo que pode esfregar um Garrincha na cara do mundo! E o Mané, com suas pernas tortas e fulgurantes, com o seu olho rútilo e também torto, pôs os Andes de gatinhas, ou de cócoras, sei lá. Quando ele enfiou um gol e depois outro, isso aqui foi, como diria um orador de gafieira, foi uma pátria constelada de garrinchas.

 

E o patético é que, quinta-feira, o video-tape de Brasil x Inglaterra nos dera um versão deprimente do escrete. O povo não sabia como conciliar as duas coisas: — o delírio dos locutores e a exata veracidade da imagem. Após a batalha de ontem, eu vi tudo. A verdade está com a imaginação dos locutores. E repito: — a imaginação está sempre muito mais próxima das essências. Ao passo que o video-tape é uma espécie de lambe-lambe do Passeio Público, que retira das pessoas toda a sua grandeza humana e esvazia os fatos de todo o seu patético.

 

Disseram os locutores que o Brasil fizera, contra a Inglaterra, uma exibição deslumbrante. Pura imaginação e, por isso mesmo, altamente veraz. O video-tape demonstrou o contrário. Azar da imagem. Mais deslumbrante ainda foi a jornada de ontem. Amigos, todo o Chile se levantou contra nós. A imprensa, o rádio, a TV, o homem de rua, as crianças — quiseram triturar emocionalmente a “seleção de ouro”. Nunca se fez um massacre psicológico tão feroz contra alguém. O futebol passou para um plano secundário. O objetivo único foi, repito, a liquidação psicológica dos craques brasileiros.

 

Mas o gostoso é que o escrete do Brasil em nenhum momento — antes, durante ou depois — teve medo. Foi um time, foi uma equipe imaculada de medo. E, já em campo, apareceu um outro adversário, o mais atro, o mais torvo adversário: — o juiz. Então, o Brasil teve de lutar contra 75 mil espectadores, contra os jornais, contra o rádio, contra a TV, contra os carabineiros, contra a cordilheira, contra tudo, contra todos e mais: — contra o árbitro. No seu medo abjeto da multidão; no pavor de ser cuspido e malhado como um judas de sábado de Aleluia — ele roubou com um descaro gigantesco. Sim, a pusilanimidade deu-lhe uma força, um poder, uma crueldade, uma dimensão inexcedíveis. E, no seu lúgubre cinismo, o sujeito só faltou apitar hands nos arremessos laterais brasileiros. Amigos, temos aí um Eichmann do apito. O que ele fez com Garrincha não tem perdão.

 

Garrincha! Desde o começo da crônica que eu queria falar no Mané. E estou-me perdendo em floreios como faria o já referido orador de gafieira. Garrincha foi a maior figura do jogo, a maior figura da Copa do Mundo e, vamos admitir a verdade última e exasperada: — a maior figura do futebol brasileiro desde Pedro Álvares Cabral. Quando eu dizia que Garrincha era varado de luz como um santo de vitral, os idiotas da objetividade torciam o nariz. Reconheço que faltava ao Mané, realmente, um toque, ou retoque, de martírio.

 

Desde ontem, porém, o Mané é mártir oficial, mártir chapado, da cabeça aos sapatos. O lívido, o gelado Eichmann do apito o expulsou, com a hedionda conivência do bandeirinha Esteban Marino. É a santidade, amigos. A coisa foi tão indigna como o seria a expulsão de são Francisco de Assis. E ainda por cima apedrejaram o Mané, tiraram o seu tépido, o seu doce, o seu rútilo sangue. É santo, sim, sem efeito de retórica, sem arranjo literário, tão santo como um são Sebastião seminu e flechado.

 

Amigos, como é mais linda a vitória roubada. O juiz gatuno deu ao nosso feito uma dimensão mais comovida e mais deslumbrante. Não faz mal o frango ou, por outra, o peru que Gilmar engoliu. O nosso goleiro come seus frangos, seus perus, mas não se deprime, não se degrada. Não foi apenas a vitória do escrete. Foi sobretudo a vitória do homem genial do Brasil.

 

[O Globo, 14/6/1962]

 

* Brasil 4x2 Chile, 13/6/1962, em Santiago, pelas semifinais da Copa do Mundo. 

 

 

 

Amigos, vencemos o Chile* . E, neste momento, eu não vou quebrar lanças em prol do estilo, como queria Bilac. E pelo contrário. Numa hora de farto pileque cívico, eu quero ter o mau gosto de um orador de gafieira. Quero falar em bandeiras “drapejando”. E vamos e venhamos: — foi uma vitória colossal, uma selvagem vitória. Estava tudo contra nós, rigorosamente tudo. Até os Andes tinham enfiado uma máscara até as orelhas.

Na minha crônica anterior, antes do jogo, eu falava na solidão do escrete. Jamais um time de futebol ficara tão só. Mas eu escrevi que o brasileiro é ainda maior quando solitário. Ponham o brasileiro numa ilha deserta. Ele sozinho como um Robinson Crusoe, ou apenas com uma arara no ombro. E o brasileiro, sem mais ninguém, bebendo água em cuia de queijo Palmira, será um rei shakespeariano, terá um peito de césar proclamado. Então faço a pergunta: — que fizemos nós, ontem, em Santiago? Éramos onze gatos pingados contra milhões enfurecidos.

Mas aí é que está. O Brasil estava só, mas tinha Garrincha. Feliz do povo que pode esfregar um Garrincha na cara do mundo! E o Mané, com suas pernas tortas e fulgurantes, com o seu olho rútilo e também torto, pôs os Andes de gatinhas, ou de cócoras, sei lá. Quando ele enfiou um gol e depois outro, isso aqui foi, como diria um orador de gafieira, foi uma pátria constelada de garrinchas.

E o patético é que, quinta-feira, o video-tape de Brasil x Inglaterra nos dera um versão deprimente do escrete. O povo não sabia como conciliar as duas coisas: — o delírio dos locutores e a exata veracidade da imagem. Após a batalha de ontem, eu vi tudo. A verdade está com a imaginação dos locutores. E repito: — a imaginação está sempre muito mais próxima das essências. Ao passo que o video-tape é uma espécie de lambe-lambe do Passeio Público, que retira das pessoas toda a sua grandeza humana e esvazia os fatos de todo o seu patético.

Disseram os locutores que o Brasil fizera, contra a Inglaterra, uma exibição deslumbrante. Pura imaginação e, por isso mesmo, altamente veraz. O video-tape demonstrou o contrário. Azar da imagem. Mais deslumbrante ainda foi a jornada de ontem. Amigos, todo o Chile se levantou contra nós. A imprensa, o rádio, a TV, o homem de rua, as crianças — quiseram triturar emocionalmente a “seleção de ouro”. Nunca se fez um massacre psicológico tão feroz contra alguém. O futebol passou para um plano secundário. O objetivo único foi, repito, a liquidação psicológica dos craques brasileiros.

Mas o gostoso é que o escrete do Brasil em nenhum momento — antes, durante ou depois — teve medo. Foi um time, foi uma equipe imaculada de medo. E, já em campo, apareceu um outro adversário, o mais atro, o mais torvo adversário: — o juiz. Então, o Brasil teve de lutar contra 75 mil espectadores, contra os jornais, contra o rádio, contra a TV, contra os carabineiros, contra a cordilheira, contra tudo, contra todos e mais: — contra o árbitro. No seu medo abjeto da multidão; no pavor de ser cuspido e malhado como um judas de sábado de Aleluia — ele roubou com um descaro gigantesco. Sim, a pusilanimidade deu-lhe uma força, um poder, uma crueldade, uma dimensão inexcedíveis. E, no seu lúgubre cinismo, o sujeito só faltou apitar hands nos arremessos laterais brasileiros. Amigos, temos aí um Eichmann do apito. O que ele fez com Garrincha não tem perdão.

Garrincha! Desde o começo da crônica que eu queria falar no Mané. E estou-me perdendo em floreios como faria o já referido orador de gafieira. Garrincha foi a maior figura do jogo, a maior figura da Copa do Mundo e, vamos admitir a verdade última e exasperada: — a maior figura do futebol brasileiro desde Pedro Álvares Cabral. Quando eu dizia que Garrincha era varado de luz como um santo de vitral, os idiotas da objetividade torciam o nariz. Reconheço que faltava ao Mané, realmente, um toque, ou retoque, de martírio.

Desde ontem, porém, o Mané é mártir oficial, mártir chapado, da cabeça aos sapatos. O lívido, o gelado Eichmann do apito o expulsou, com a hedionda conivência do bandeirinha Esteban Marino. É a santidade, amigos. A coisa foi tão indigna como o seria a expulsão de são Francisco de Assis. E ainda por cima apedrejaram o Mané, tiraram o seu tépido, o seu doce, o seu rútilo sangue. É santo, sim, sem efeito de retórica, sem arranjo literário, tão santo como um são Sebastião seminu e flechado.

Amigos, como é mais linda a vitória roubada. O juiz gatuno deu ao nosso feito uma dimensão mais comovida e mais deslumbrante. Não faz mal o frango ou, por outra, o peru que Gilmar engoliu. O nosso goleiro come seus frangos, seus perus, mas não se deprime, não se degrada. Não foi apenas a vitória do escrete. Foi sobretudo a vitória do homem genial do Brasil.

[O Globo, 14/6/1962]

* Brasil 4x2 Chile, 13/6/1962, em Santiago, pelas semifinais da Copa do Mundo. 




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