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  Regras do Blog | Perfil do tpadua 23 de junho de 2017  


19/05/2017
Cem por cento Dida - Nelson Rodrigues

O placar do Flamengo é de assustar* : — 8 x 0! Essa abundância numérica significa que o rubro-negro submeteu o Olaria a um metódico, a um meticuloso, a um hediondo massacre. E o patético é que não foi um time, uma equipe, que construiu o escandaloso placar. Foi um homem, um único e solitário homem que desandou a fabricar gols a torto e a direito. Esse homem chama-se Dida e eu o apresento aqui como o meu personagem da semana.

Na véspera, ou seja, sábado, um outro craque enfiara quatro. Refiro-me a Didi que, funcionando na frente, na área, acabou com a Portuguesa. Conquistou quatro tentos de antologia. Dida, porém, fez mais: — meia dúzia e, ontem, nenhuma força humana ou divina conseguiria destruí-lo. Muita gente há de pensar que Dida abusou, que não devia ter feito tanto, que podia ter-se limitado aos dois, aos três, ou, como Didi, aos quatro. Mas a verdade é que o aparente exagero tem sua íntima lógica irredutível. De fato, Dida andou passando mal na Copa do Mundo. Na Suécia, o locutor Leônidas apanhou o microfone para dizer horrores a seu respeito. E vamos e venhamos: — fora da pátria, o sujeito é mais sensível, mais vulnerável. Qualquer restrição que se lhe faça soa como uma bofetada.

E, além disso, nada enfurece tanto como a injustiça. Qualquer paralelepípedo sabe que Dida é um jogador de alta qualidade. Perguntem a uma zebra do jardim zoológico: — “Dida é um perna-de-pau?”. E a zebra responderá, com uma ênfase tremenda: — “Absolutamente! Absolutamente!”. Pois bem: — só Leônidas achou de arrasar Dida como se este fosse um bonde. Disse, entre outras barbaridades, que ele não podia nem jogar num time de primeira divisão. Falei em injustiça e repito: — deslavada injustiça! Só hoje, passado o impacto da Copa do Mundo, é que se compreende a ferocidade de Leônidas. Craque do passado, ele quer ser ainda “o maior”. Sofre com os “diamantes negros” ou “brancos”, ou “morenos” da atualidade. A glória alheia, em futebol, o ofende e humilha. E, por isso, meteu o pau em Dida. Era como se dissesse: — “Ah, meus tempos, meus tempos!”.

E o fato é que Dida jogou apenas uma vez na Suécia e voltou de lá amargurado. E, aqui, havia quem perguntasse: — “Será que Dida acabou?”. Muitos julgavam sentir, nas suas últimas atuações, um certo desgaste. Suas velhas características pareciam diluídas. E eis que, ontem, contra o Olaria, o homem voltou a ser ele mesmo. Viu-se na Gávea um Dida em plenitude, comendo a bola como nos seus instantes mais puros e triunfais. Dirá alguém que o Olaria não é grande adversário. De acordo. Longe de mim considerar o Olaria um escrete. Mas uma goleada impõe-se por si mesma, torrencial e irrefutável. Como raciocinar, como argumentar contra a histeria numérica dos 8 x 0? E se atentarmos em que foi Dida, unicamente Dida, o autor de seis dos oito gols, então compreenderemos que estamos em face não de um ex-Dida, mas do próprio. Não há dúvida, amigos. Despontou com a sua furiosa velocidade, e mais: — com a capacidade de invadir, de penetrar, de cortar, de envolver e de fuzilar. Mas creiam: — o que o inspirava não era apenas o sadismo de um gol atrás do outro. Ele enfiava um gol, e depois outro, e mais outro, como se quisesse fazer uma afirmação para si mesmo. Queria sentir-se um Dida integral e não tenhamos ilusões: — foi cem por cento Dida.

Qualquer jogador de futebol, do virtuose ao perna-de-pau, tem suas panes, suas depressões. Dida estaria numa dessas angústias. Mas quem, depois de meter seis gols, não há de sentir-se um triunfador, com um certo charme cesariano, uma certa aura napoleônica? Sim, depois de ontem, Dida baniu de si mesmo, até o último vestígio, o drama da Suécia.

Quando soou o apito final, o aspecto do grande jogador era algo patético. Tinha o olho rútilo e o lábio trêmulo. Que os outros times tratem de pôr as barbas de molho! Dida voltou a ser Dida e para sempre Dida.

[Manchete Esportiva, 30/8/1958] 

* Flamengo 8 x 0 Olaria, 22/8/1958, na Gávea. Dida tornou-se o maior goleador da história do Flamengo antes de Zico, mas não voltou à seleção brasileira. Encaminhado por Carlos SA.




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