Busca:
   Acontece
   Artigos
   Condomínios
   Entrevistas
   Fazendo Arte
   Galeria
   Gente
   Opinião
   Promoções
   Sobradinho
   Sobradinho II
   Úteis
   Vale a pena acessar
   Esporte
   Sobradinho 48
   Planaltina
   Paranoá
   cobertura
Busca

O que você espera de 2017?

 
ver todos os resultados
 
Busca
Receba em seu e-mail as atualizações de nosso blog
Nome
E-mail
cadastrar desativar
 
  Regras do Blog | Perfil do tpadua 23 de junho de 2017  


14/06/2017
Matar ou morrer - Nelson Rodrigues

Amigos, se me perguntarem qual é o maior defeito do futebol brasileiro, eu direi: — a delicadeza, e reforço: — a extrema delicadeza. De fato, não há na Terra um craque que tenha a polidez do nosso. O brasileiro é um tímido, um contido, um cerimonioso. Foi assim em 58, foi assim em 62. Nas duas Copas, os adversários já entravam de navalha na liga.

Ao passo que, até no foul, o escrete verde-amarelo era de uma suavidade impressionante. Vejamos em 58. O jogo Suécia x Alemanha* foi uma carnificina. Eu estava vendo a hora em que os adversários iam arrancar a carótida uns dos outros para chupá-la como tangerina. Foram noventa minutos de uma fero de recíproca e homicida. Valeu tudo, rigorosamente tudo.

Pois o Brasil não fez um único e escasso vexame. Era de dar pena a correção dos nossos rapazes. Jogavam na bola e só na bola. Jamais o mundo vira um escrete tão doce e de uma inocência quase suicida. Um sociólogo que lá estivesse havia de fazer a constatação apiedada: — “O escrúpulo é próprio do subdesenvolvimento” .

O escrúpulo e mais: — a humildade, a lealdade, o altruísmo. No jogo Brasil x França, o árbitro comportou-se como um larápio. Não houve, em toda a história da Copa, um roubo mais cristalino e cínico. Tivemos que fazer três gols para que valesse um. E o escrete brasileiro nem piscou. Deixou-se furtar e só faltou beijar a testa do ladrão.

 O pior vocês não sabem. Até 58 o Brasil fazia de si mesmo a pior das imagens. Sim, o brasileiro se considerava um facínora. E, no Maracanã, quando um de nós ousa um foul mais violento, o estádio vem abaixo. Por toda parte há quem esbraveje: “Cavalo! Cavalo!”. Mas é uma injustiça. Muito mais brutal do que o nosso é o futebol da Inglaterra, da Alemanha, da França, da Itália, da Bulgária.

O meu amigo Antônio Callado viu, certa vez, um jogo Inglaterra x Escócia. Foi um pau só, do primeiro ao último minuto. E, súbito, explode um sururu. Brigaram os 22 jogadores, o juiz, os bandeirinhas, as torcidas. A polícia montada teve de invadir o campo. No Brasil, o sururu é tão antigo, tão obsoleto como um quepe da Guerra do Paraguai. E, quando um de nós dá um tapa, as manchetes tremem e há uma comoção nacional.

A doçura, a cerimônia, a timidez do nosso futebol são defeitos gravíssimos. Um jogador brasileiro tem vergonha de pisar na cara do adversário caído. O europeu não. O europeu não recua diante de nada. Vocês se lembram do jogo Brasil x Alemanha aqui no Maracanã. Foi uma partida medíocre, mas que teve um lance de epopéia.

Refiro-me à bola dividida entre Pelé e um alemão. Este não recuou, nem o brasileiro. E o dilema criado para ambos foi o seguinte: — matar ou morrer. O alemão preferiu matar e Pelé não quis morrer. O nosso levou vantagem pelo seguinte: — porque introduziu no choque a molecagem brasileira. Conclusão: — Pelé sobreviveu e o germânico saiu de maca.

A imprensa teve a reação própria do subdesenvolvido: — condenou Pelé. Se a coisa fosse na Alemanha, e a vítima Pelé, o cronista de lá ia considerar a fratura um fato normal e intranscendente. Amigos, na Europa o foul praticamente não existe. O juiz só costuma apitar quando um adversário estripa o outro.

E não há dúvida de que, por uma tendência natural e por se tratar de um tri, vão caçar os brasileiros a pauladas. Outrora, o brasileiro babava de inveja e deslumbramento só de ouvir falar no inglês. Mas verdade é bem diferente. Hoje sabemos que o único inglês da vida real é o brasileiro. Sim, qualquer favelado nosso, desdentado e negro, é um monstro de boas maneiras.

[O Globo, 30/5/1966] 

* Nelson refere-se a Suécia 3 x 1 Alemanha (24/6/1958) e Brasil 5 x 2 França (25/6/1958), ambos em Gotemburgo. O outro jogo foi Brasil 2 x 0 Alemanha, 6/6/1965, no Maracanã, em que Pelé quebrou a perna do alemão Giezzman.




« voltar  |  Enviar este conteúdo  |  Imprimir este conteúdo  |  Comentar esse conteúdo  |  



SEM COMENTÁRIOS



16/06/2017 - Liberado primeiro lote do Imposto de Renda - O crédito bancário do primeiro lote de restituição de...
13/06/2017 - Vagas para estudar no IFB - Com o uso crescente da tecnologia, o Instituto Federal...
12/06/2017 - Olha o feriadão ai, gente - Devido ao feriado de Corpus Christi, comemorado nesta quinta-feira...
09/06/2017 - Conferência Distrital do Meio Ambiente 2017 - Agora é a vez de as comunidades da Fercal,...
08/06/2017 - Agora sim. Saias das frequentadoras da CLDF serão medidas - A Polícia Legislativa da Câmara Legislativa do Distrito Federal...
05/06/2017 - Feira do Livro de Brasília 16 a 25 - A 33ª edição da Feira do Livro de Brasília,...
03/06/2017 - Vacina para todos - A partir desta segunda-feira (5), seguindo orientação do Ministério...
03/06/2017 - Um caminhar pelas trilhas do Jardim Botânico de Brasília - Com mais de 600 hectares, a área do Jardim...
02/06/2017 - Campus Party em Brasília - Em junho, Brasília será palco de um dos maiores...
02/06/2017 - Pobre Garrincha - Ruy Castro -  Os ossos de Garrincha desapareceram no cemitério de Raiz da...
Destaques
Registros Históricos - Carlos I.S. Azambuja
São registros históricos que comprovam a veracidade do que dizemos quase que diariamente. Quem diz o contrário é ignorante, por não ter nascido naquela época e não haver estudado a História verdadeira (com agá maiúsculo), ou por ser mal intencionado mesmo, como...



Pólo de Cinema. O sonho não acabou, ainda - Pedro Lacerda*
Não é a primeira vez que alguém tenta acabar com o sonho do Pólo de Cinema e Vídeo Grande Otelo, localizado em nossa Sobradinho. Desta vez, nos parece que é o próprio governo que está pretendendo dar um fim...



Marcada para segunda-feira,4, Audiência Pública para tratar do Ribeirão Sobradinho
Está marcado para acontecer dia 4 de novembro, uma segunda-feira, Audiência Pública proposta pela Câmara Legislativa do Distrito Federal exclusiva para tratar do Ribeirão Sobradinho. O evento será às 15 horas na Casa do Ribeirão Q. 9 Área Especial, frente para...



Busca