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  Regras do Blog | Perfil do tpadua 20 de novembro de 2018  


31/07/2018
Crítica do premiado cineasta Vladimir Carvalho a respeito do filme do Pedro Lacerda

Vladimir Carvalho

"Vidas Vazias e as horas mortas", filme de Pedro Lacerda, abre com uma “citação” de Glauber Rocha, mais precisamente uma mistura daquela sequência que está em Deus e o Diabo na Terra do Sol, onde o vaqueiro Manuel (papel de Geraldo del Rey ) contempla agachado e contrafeito rezes mortas no chão da caatinga seca, com outra em que reza aos pés da cruz na cova da mãe morta pelos jagunços do coronel dono das terras. No longa de Lacerda, trata-se de um “cemitério” a céu aberto, no seio da caatinga árida e sob o sol inclemente. Com uma expressiva mise en scène, apurada fotografia e uma trilha sonora a altura do original e tão eloquente quanto, é quase impossível não se pensar na identificação com o clássico do genial baiano. Ali uma figura com as vestimentas que pode ser de um vaqueiro ou cangaceiro, após identificar uma cruz onde se vê pregada a foto de um homem, levanta-se, ergue os braços e gira circulando em volta das covas, entoando uma espécie de agressivo aboio e ameaçando os céus com um punhal. 
Até aí vão-se as semelhanças de estilo porque o passo seguinte é um mergulho vertiginoso com a câmara violentamente alterada, vendo o mundo em plano inclinado a sugerir a borda de um precipício, porque o cenário quase sempre vai parecer fora do prumo normal. Deixando para trás os grotões da terra calcinada dos sertões nordestinos, o homem que se debruçava sobre covas com cruzes, onde identifica o retrato de um familiar, reaparece no ambiente fechado de um desses frigoríficos supermodernos só encontradiços nas grandes cidades. O ambiente asséptico e gelado, o homem no seu impecável uniforme branco de trabalho às voltas com as carnes sangrantes dos animais. Daí por diante entramos em um mundo urbano em que tudo contrasta com as aparências do meio rural brasileiro e é nesse ponto que vai se instalando uma história, a da tragédia dos irmãos Saliba, três migrantes nordestinos, batendo cabeças entre São Paulo e Brasília, perdidos uns dos outros já faz muito. Mas cada qual padecendo das armadilhas e das injustiças dos dragões da riqueza, que na “entrada da cidade os espera pra peleja”, como naquela música de Gil e Capinam. Desnorteados e inadaptados eles são parte do inumerável “exército de reserva”, presa fácil que classicamente foi pau para toda obra, fazendo a fortuna do sul maravilha, porém, marginais de tudo, eles só engrossam o meio sub-humano das favelas. O talento do diretor mostra-se por inteiro em copiosa fabulação, a mesma que já demonstrara exercitar com êxito no seu romance Açaí, publicado faz quase vinte anos. 
Vidas Vazias é um filme de busca, um thriller, com eficiente montagem, que articula, em diferentes espaços e em tempos rápidos, uma série de situações em que se vê a tripla irmandade dos Saliba protagonizando episódios de intensa dramaticidade, envolvidos que são com o submundo do crime, do roubo e do tráfico de drogas, numa decaída sem fim. Um dos irmãos que mascateia a duras penas na periferia de São Paulo tem a ideia fixa de reencontrar os outros mesmo sem ter a menor noção de onde localizá-los, sem rumo e sem endereços, como sempre acontece com migrantes desavisados. Quando perguntado como fazê-lo, ele responde que é seguindo o rumo do próprio sangue que corre nas suas veias como nas dos outros parentes. É um lance de surpreendente primitivismo herdado do mundo arcaico e feudal que deixou para trás, mas que mora no seu inconsciente. Porém, o destino arma suas tretas e o sangue joga o seu papel quando de fato o persistente Saliba reencontra finalmente um dos seus manos, mas varado de bala e se esvaindo na via pública, até a última gota, vítima da quadrilha a que se ligara. 
Aflição e desespero percorrem essa saga trágica que dá conta, em momentos de muito bom cinema, da tragédia que cotidianamente assistimos nesse país da bala perdida, que desce cada vez mais velozmente ladeira abaixo, como nos enquadramentos deste curioso filme de Pedro Lacerda.

Vladimir Carvalho - cineasta
Cineasta

 




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