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  Regras do Blog | Perfil do tpadua 25 de junho de 2017  


23/06/2017
"ladrões de bicicleta" - Jacob Fortes

Jacob Fortes de Carvalho - de Sobradinho.

Dentre os papeis admitidos à bicicleta, o de maior visibilidade é o da recreação. É nesse momento, de enlevo, que os bicicletistas oferecem suas faces às carícias da brisa. Mas nem sempre é assim.  Em vez de carícias, por vezes faces são marcadas com instrumento perfurante, símile aos ferretes com que se ferreteiam gado. Foi o que sucedeu a um adolescente de São Bernardo do Campo: quando se aprestava à tarefa de pilhar uma bicicleta detiveram-no; à testa tatuaram-lhe a sentença “eu sou ladrão e vacilão”. Felizmente os executores da vingança, já enquadrados no crime de tortura, encontram-se retidos; desabaram sob os escombros da sua própria tirania. Obviamente infrações carecem de castigo para que não se desperdice o valor da pedagogia. Porém, o modo, nada convencional, com que os verdugos pretenderam escarmentar o infrator, exprime excesso incompatível com o real merecimento da infração. A bem dizer, a sentença não fora condigna ao delito. Isso de marcar com ferrete em território brasileiro vigora unicamente para o gado vacum. Para estigmatizar ou punir escravos e ladrões é procedimento que ficou para trás, oculto no capítulo denominado Escravidão, (embora devesse chamar-se “OPRÓBRIO”). Também não caiu no esquecimento popular o caso do médico que perdeu a vida quando recebia os beijos da brisa às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Enfim, recorrentes tem sido os episódios nos quais pessoas se veem despojadas das suas bicicletas. Esses furtos do mundo real acabam por inspirar o mundo ficcional; a literatura. Nisto o premiado cineasta Vittorio de Sica se houve soberbo: concebeu o filme “Ladrões de Bicicleta, clássico do cinema italiano que disserta sobre a saga, fecunda em incidentes, de um italiano, desempregado, Antônio, (Lamberto Maggiorani), que conseguiu um emprego de colador de cartazes, mas para assumi-lo precisava de uma bicicleta. Maria, (Lianella Carell), esposa de Antônio, empenhou alguns objetos do lar e, desse modo, conseguiram comprar a bicicleta. Desafortunadamente fora esta furtada no justo primeiro dia de trabalho; com ela se foram os sonhos de uma família de operários, amarrotada. Dar-se, a partir daí, a odisseia de Antônio; meteu-se no desesperado empenho de recuperar a bicicleta furtada. Depois de percorrer os labirintos mais recônditos da região, Antônio desvaneceu.  Tresloucado pelas necessidades que açoitavam a si e sua família, Antônio, tomou o malsinado alvitre de furtar uma bicicleta. Flagrado por populares, expiou consequências em nível do purgatório. O drama é exposto de modo tão real e forte (tal qual o “ladrão vacilão”) que os sofrimentos se reproduzem nos espectadores.

Mas, enfim, qual a relação entre o desemprego da Itália e do Brasil? Naquela o desemprego proviera de um conflito bélico que reduziu a ruínas a pujante Itália e, concausa, deixara sua gente imersa em privações. Também, fê-la exportar navios abarrotados de paisanos para São Paulo. Enquanto “Ladrões de Bicicleta” serviu de pano de fundo para Vittorio de Sica escancarar os efeitos do pós-guerra o episódio ladrão vacilão revela as consequências de outra guerra: silenciosa, desalumiada, sem bala, mas com malas, transportadas por corruptos cujos hábitos parasitários, aliás, lhes confere os títulos: matricidas e liberticidas. Matricidas porque, morcegando a própria mãe, (pátria-amada), debilitam-na; liberticida porque a privam da sua liberdade plena. Enquanto esses semeadores das lepras sociais se entregam ao sacrificante trabalho de derivar a colheita do erário para o interior de malas, (meias caíram em obsolescência), a escória social vai-se expandindo, sobrevivendo dos restolhos, dos sobejos; é o que lhe cabe como legado deste latifúndio corruptivo cujos efeitos, cáusticos, estão expressos no desemprego, na mendicância, na exclusão, no atraso, nos furtos, na degradação social. Desencaminhar recursos públicos é a fórmula ideal para multiplicar os “lazarentos”, os “severinos” (de João Cabral de Melo Neto). O pesaroso é que a corrupção vem adquirindo contornos de fatalismo, a exemplo das secas, das catástrofes, das geadas e, sendo assim, resta apenas a resignação; afinal, é o destino, inexorável, irremediável. Mas em vez de resignação melhor fará o povo reto se atiçar as chamas da indignação como forma de se restabelecer a moralidade pública. Moralidade na qual se avulta a figura do ex-prefeito Graciliano Ramos.

Se a prática de ferretear, de impossível ressurreição, reaparecer, que o seu infamante sinal seja decalcado à testa de quem fomenta a degradação social e não os degradados, as vítimas, ladrões de bicicleta, de galinha.




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