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26/05/2017
Povo que não sonha se liquida - Jacob Fortes

Jacob Fortes de Carvalho - de Sobradinho.

Não é apenas o provimento de bucho que sustenta um povo, mas também os sonhos. Tire os sonhos de um povo e o verá apagado, sem ânimo, abatido, fechado em si, emurchecido.

Não é de data moderna o sentimento de pesar dos brasileiros por se acharem impedidos de sonhar. O pesar surge sob a forma de doença. Essa doença, síndrome do confisco de sonhos, fora engendrada pelos corruptos. Os sonhos, pelo seu papel singular, são, por assim dizer, o estímulo, os estribos invisíveis do povo. Por mais que não se possa tocar nos sonhos eles são a entidade em que todos confiam para segredar propósitos, aspirações. São os sonhos que minimizam a crua realidade dos percalços; fazem o povo crer ser possível obrar feitos. Sem eles, no entanto, o povo chega a descrer de si mesmo. No dizer do poeta, “os sonhos são igualmente os brotos: vão rebentando e se abrindo em floradas”. Assim como a água da rega alegra as verduras, o povo carece dos borrifos de sonhos para não perder o viço, não emurchecer.

Há decênios os corruptos não fazem outra coisa senão privar os brasileiros dos seus sonhos. Essa prática abominável de confisco enseja alguns mínimos questionamentos: por que será que esses honoráveis patifes, de paletó e gravata, preferem que suas memórias à posteridade contenham o timbre da canalhice, das malfeitorias? Será que no íntimo das consciências dessa chusma de salteadores não há um pugilo de remorso pelas impiedades que cometem contra os brasileiros e o Brasil? Que escarmento merecem esses solenizados calhordas por se haverem na continuada prática de despojar esses bens tão preciosos, os sonhos? Será que as súplicas dos brasileiros contra a ação nociva dessa irmandade biltre têm sido insuficiente, de pouco fervor? Que oração, em nível de recurso, se pode evocar para fazê-los emendar-se; demovê-los do nefando vício de expropriar os sonhos do povo? Compulsando o catálogo dos rogos sugiro que comecemos pelo miserere, (salmo 51, da Bíblia), indicado para fazer aflorar a piedade alheia. Não surtindo o efeito desejado, e levando em conta não existir no Brasil o suplício capital, (e o fato de que as penas de reclusão lhes parecem água benta e os presídios escritórios para recalcitrar no crime) sobrerresta propor a criação de medida de espessura; aditar as leis penais, (hoje, brandas, românticas), de modo a que surjam normas de dentes afiados, mais imperativas, austeras, que cominem penas de maior acrimoniosidade.

Tivesse o Brasil severidade contra saqueadores, lesas-pátrias, não estaria claudicando nessa aridez, mas em radiante prosperidade, com seu terreiro limpo, desinfetado e, é claro, um gabinete dentário em cada esquina, além de metrôs de fazer a inveja sofrer.

Até quando essa malta lançará ao rosto do Brasil e de sua gente essa afronta? Até quando o povo gemerá debaixo de pedágio, escorchante, que sustenta o apetite de esponja dos ladravazes do Brasil? É perpétua a validade do alvará que permite a essa confraria de morcegos — uns anafados, outros de papadas pletóricas — vexar sadicamente o povo tal qual o gato faz o rato padecer?

Sentir-me-ei regiamente gratificado se tudo que deixei dito neste texto chegar às famílias dos corruptos, nomeadamente às suas mães; que não os tiveram para o crime.

Os sonhos nos põem para além das nossas dimensões”.




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